“Quadrilátero ferrífero”, um poema de Hélio Pellegrino
Em tuas colinas rasasnão há vinhedos nem olivais.Há — púrpura difícil — a hematita,uva das Minas Gerais. Uva sáfara, mineral,fermentando uma pinga de poeiracujo álcool — lâmina de rocha e cal —torna triste a embriaguez mineira. Embriaguez vertical, contida,cujas cores explodem dentrodo peito: ocre violento, lacree prata, sol — e lua ferida.
“A solidão e sua porta”, um poema de Carlos Pena Filho
A Francisco Brennand Quando mais nada resistir que valhaa pena de viver e a dor de amare quando nada mais interessar,(nem o torpor do sono que se espalha). Quando pelo desuso da navalhaa barba livremente caminhare até Deus em silêncio se afastardeixando-te sozinho na batalha a arquitetar na sombra a despedidado mundo que te foi […]
“Chuva ácida”, um poema de Kalew Nicholas
Um fio de fumaça faz a ponteentre o morro e essas nuvens.Enquanto a terra inflamada devora os pneus,a poeira levanta com os rastros da fuga. E a fumaça dos pneus queimados,com esse cheiro que impregna nos rostos,defuma os seus churrascos, suas lajes,seus quartos e os momentos de ócio. A diretora, na manhã seguinte,entrará na sala […]
“Imitação”, um poema de Pedro Lucas Rego
I. Antes de tudo do ouro e do barrosob o tédio do mar estáticoafundava o braço cariciava a terraque entre os dedos se espremia que em colunas subia ficava algumas porções eram ilhas outras continentes II. Antes do ouro pensou no brilhoe à medida de Seus olhosinventou o sol o mormaço roçando a superfícieas coisas […]
Análise: “Legado”, um poema de Carlos Drummond de Andrade
Que lembrança darei ao país que me deutudo que lembro e sei, tudo quanto senti?Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceuminha incerta medalha, e a meu nome se ri. E mereço esperar mais do que os outros, eu?Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,a […]
Poemas têm sotaque?
É claro que a palavra escrita não tem literalmente sotaque — são apenas riscos em um papel. Mas, quando lemos um poema, é possível identificar vários traços de oralidade do eu lírico. Vejamos um exemplo. Leia a estrofe final do poema A Casa de Carmo de Minas, do Emmanuel Santiago: “Com sua maligna presença,o tempo, […]
Análise: “A Casa do Carmo de Minas”, um poema de Emmanuel Santiago
Certa vez, o Brian comentou que o poema A Casa do Carmo de Minas é a Máquina do Mundo dessa geração. Com essa fala, ele estava considerando o poema do Emmanuel Santiago o melhor já escrito por essa geração. Mas o que essa comparação quer dizer? E o que há de especial neste poema que […]
“Arquipélagos”, um poema de Derek Walcott
Arquipélagos, I Ao fim desta frase, começará a chover.Pela margem da chuva, um barco. Veleiro longeando a visão das ilhas;a crença nos portos de toda uma raçaadentra a neblina. A guerra de dez anos finda.O cabelo de Helena, uma nuvem cinza.Tróia, fosso brancono mar garoante. Os pingos se esticam como cordas de harpa.Um homem de […]
3 poemas de Gerardo Mello Mourão
Gerardo Mello Mourão foi uma figura muito enigmática. Foi militante de diversos partidos, teve dissidências políticas com vários deles. Foi exilado, morou na China. Fez uma viagem, com intuito intelectual e literário, por todo o mundo, com a Santa Hermandad de la Orquídea. Enfim, é uma pessoa que viveu muitas aventuras. Ganhador do Jabuti em […]
3 poemas de Alberto da Costa e Silva
1. Ao lado de Vera (seção I) Usa o meu coração, se o teu já tens gasto, feito a pedra de mó que a faca alisa, cava e parece estender como massa de trigo sobre a mesa molhada. Usa o meu coração como o trapo que limpa a sujeira das tábuas e enegrece de pó, e se pui, e […]
“O poeta desconhecido”, um poema de Marcus Accioly
ó tu (poeta) tu (mão que incendeia com a lâmpada da voz a fria página) tu (que vives sem luz na escura aldeia que de luz só possui tua palavra e não sabe que é luz pois não se alteia além do velador) tu (cuja lágrimaseca em vão sem ninguém saber que é pranto)tu (que só tens a Deus e […]
Verso na poesia: o que é, características e exemplos
Já se perguntou como a poesia ganha vida e a transmite aos seus leitores? O segredo está em uma pequena unidade poética chamada “verso”. O verso é o coração pulsante da poesia, dando ritmo, musicalidade e estrutura a cada linha — vai muito além de apertar enter e quebrar linhas. Neste artigo, exploraremos o significado […]
O que é um soneto?
É bem provável que você tenha se deparado com um soneto já nas aulas do Ensino Fundamental. O soneto é um dos mais conhecidos e apreciados gêneros poéticos, com uma longa história que remonta aos séculos XIII e XIV. Mas por que essa é a forma fixa mais popular e continua cativando leitores e poetas […]
Análise: “A Pantera”, um poema de Rainer Maria Rilke
A Pantera é um poema escrito entre 1902 e 1903 pelo poeta alemão Rainer Maria Rilke. Neste artigo, Ighor Valentim, que traduziu o poema para o português, faz uma análise sobre os aspectos que tornam este poema único e conta alguns dos critérios utilizados para a tradução. O poema A Pantera No Jardin des Plantes, […]
Quatro poemas de Ismail Kadaré
Ismail Kadaré é um poeta e romancista albanês, considerado por muitos um dos melhores escritores contemporâneos. Seus temas estão totalmente inseridos na cultura albanesa que, por meio da tradição oral, ainda preserva seus códigos sociais, seus mitos e seu idioma, sem sofrer tanta influência ocidental. Ainda que desde os anos 1980, Kadaré tenha uma relação íntima […]
“Soneto da Profecia”, um poema de Pedro Lucas Rego
A ponte São Francisco está submersa.O mar faminto devora a cidade:afoga os casarões pelas janelase os homens estrangula a água suave. Enquanto São Luís morre depressa,e o sol, com brilho espectral, tudo invade(refletindo a escama, tez de arestas)como se a morte fosse uma obra de arte, distante dos destroços a Serpente,qual Nero namorando Roma em […]
“Resposta de Ulisses a Penélope”, um poema de Aulus Sabinus, traduzido por Gerardo Mello Mourão
O poema de Aulus Sabinus, aqui traduzido por Gerardo Mello Mourão, foi transcrito por Caleb Oliveira, que faz um cuidadoso trabalho de pesquisa a respeito da obra do cearense. Quem foi Aulus Sabinus? Aulus Sabinus, poeta latino do século I, contemporâneo e amigo íntimo de Ovídio. Em Amores 2.18.27-34, Ovídio informa-nos da astuta ideia de Sabinus de escrever […]
O que são sílabas poéticas e como contá-las?
Quando começamos a estudar poesia, logo nos deparamos com uma questão básica, mas que pode parecer muito complexa: a contagem de sílabas poéticas. Para desmistificar o que parece complexo, fizemos uma breve explicação com exemplos dos tópicos mais importantes desse aspecto da métrica poética: O que são sílabas poéticas? Uma sílaba poética é a menor […]
Análise: “Ecce Homo”, um poema de Cecília Meireles
ingem-lhe a fronte pálida e serenaEspinhos. Tem na face o laivo imundoDe escarros de judeus. No olhar profundoBailam trêmulas lágrimas de pena E dó, pelas misérias deste mundo.Pilatos, vendo-O assim, à turba acena:– Ecce homo! – lhe diz. Mas a atra cenaAo povo não comove, furibundo. Do sangue de Jesus tem voraz sede,Tem-lhe da carne […]
“Estranha madrugada”, um poema de Ariano Suassuna
Alguém morreu na estranha madrugada.Morreu sem lamentar-se inutilmente.A noite escureceu sobre sua alma,cravaram-se as estrelas no seu corpo. Alguém morreu na estranha madrugada.Homens velhos torceram-se na camae as colunas de sangue dessa mortepesaram sobre a terra adormeceis. Um homem? Uma mulher? A nós que importa?A vida debateu-se no silêncioe foi por fim tragada pelas águasno […]
“Matriarca”, um poema de Kalew Nicholas
— Quando eu for embora vocês vão sentira minha falta! — E como eu sinto, Doris,Doris, e como eu sinto. Pois a criança corre, cresce, caça as borboletas que engole,mas nunca volta ao ventre que a pariu.Esse fruto (muito mais pomar do que flor,que se removido ainda deixa resquício)é responsável pela minha tia, meu tioe […]
“A morte do Tibira”, um poema de Pedro Lucas Rego
E corre o tibira na mata cortante,seu corpo se esquiva — tomado por sangue —de balas e flechas lançadas por índios;seus arcos rendidos às rezas dos fradesapontam, depostos de orgulho e vontade,ao rumo por onde seguiu seu amigo. Queriam-no preso os cristãos invasores;louvado a manhã, tossido os tambores,um falso converso acusava o roteiro:com duas batidas […]
Crítica: “Viagem à Demência dos Pássaros”, de Alberto Pereira
A palavra verso vem do latim vertere, que significa voltar, verter, virar. É o que ocorre nos versos: aqui no Ocidente, quando os olhos chegam à ponta direita, retornam à ponta esquerda. E podemos dizer que, além desse aspecto básico e cíclico, a poesia se caracteriza pela reiteração de significados em um nível mais profundo: nas […]
Eu me arrependi dos poemas que publiquei?
“Se, porém, alguma vez vier a escrever algo, sujeite-o aos ouvidos do crítico Mécio, aos de seu pai e aos meus e retenha-o por oito anos, guardando os pergaminhos; o que você não tiver publicado poderá ser destruído; a palavra lançada não sabe voltar atrás.”Horácio, em Arte Poética. Quando decidimos que a Logopeia seria um […]
Canto I de “Os Cantares”, de Ezra Pound, por Gerardo de Mello Mourão
Os Cantares de Ezra Pound, aqui traduzidos por Gerardo Mello Mourão, bem como as epígrafes e notas, foram transcritos por Caleb Oliveira, que faz um cuidadoso trabalho de pesquisa a respeito da obra do cearense. Os Cantos II e III podem ser lidos aqui e aqui. Sobre a tradução A presente tradução foi retirada do Caderno RioArte, Ano […]
Canto II de “Os Cantares”, de Ezra Pound, por Gerardo Mello Mourão
Os Cantares de Ezra Pound, aqui traduzidos por Gerardo Mello Mourão, bem como as epígrafes e notas, foram transcritos por Caleb Oliveira, que faz um cuidadoso trabalho de pesquisa a respeito da obra do cearense. Os Cantos I e III podem ser lidos aqui e aqui. Sobre a tradução A presente tradução foi retirada do Caderno RioArte, Ano […]
Canto III de “Os Cantares”, de Ezra Pound, por Gerardo Mello Mourão
Os Cantares de Ezra Pound, aqui traduzidos por Gerardo Mello Mourão, bem como as epígrafes e notas, foram transcritos por Caleb Oliveira, que faz um cuidadoso trabalho de pesquisa a respeito da obra do cearense. Os Cantos I e II podem ser lidos aqui e aqui. Sobre a tradução A presente tradução foi retirada do Caderno RioArte, Ano […]
Análise: “Tecendo a Manhã”, de João Cabral de Melo Neto
Tecendo a Manhã 1. Um galo sozinho não tece uma manhã:ele precisará sempre de outros galos.De um que apanhe esse grito que elee o lance a outro; de um outro galoque apanhe o grito que um galo antese o lance a outro; e de outros galosque com muitos outros galos se cruzemos fios de sol […]
Análise: “Flamingos”, de Henrique Nascimento
Henrique Nascimento, poeta e tradutor pernambucano, é um dos nomes promissores da poesia contemporânea. Suas traduções dos parnasianos franceses prometem preencher uma lacuna: a ausência de boas traduções de poetas como Théodore de Banville no Brasil. Neste breve artigo, analisaremos Flamingos, o seu poema de destaque, que integra o volume Pássaros na Noite. O poema Flamingos […]
“O aterro”, um poema de T. E. Hulme
(A fantasia de um cavalheiro arruinado numa noite fria e amarga.) Certa vez, o êxtase senti no sutil dos violinos,no brilho dos saltos de ouro sobre o duro piso.Agora vejo que o aconchego é a essência da poesia. Ó, Deus, torna pequena a manta do céu carcomida pelos astros, para que nela eu me envolva e assim durma confortável. […]