Poemas

4 poemas de guerra para tempos violentos

A história (e por consequência a arte) sempre foi marcada por guerras. Basta lembrar que todos os grandes impérios antigos foram extremamente militarizados, e que o poema fundador da literatura ocidental, a Ilíada, constitui fatos ocorridos durante a Guerra de Tróia. Assim, os poetas, além de eventualmente lutarem, foram importantes nesses momentos de conflito, registrando-os de forma artística com palavras, imagens e ritmos.

Neste artigo, veremos 4 poemas para serem lidos durante os tempos de guerra. Porém, antes da análise, explicaremos o conceito de “disposição anímica”, que te ajudará a absorver e compreender melhor qualquer poema

O que é disposição anímica (Stimmung)?

A disposição anímica, segundo o teórico alemão Emil Staiger, é o alinhamento do objeto e do sujeito que o percebe. Em “Conceitos Fundamentais da Poética”, o autor explica que a poesia lírica depende desse fenômeno referido com a palavra alemã “stimmung”.

A Stimmung é como um estado ou uma aura na qual o artista não está diante das coisas, mas está ‘na’ coisa e também em si. Dessa forma, por exemplo, quando Li Bai, poeta lírico chinês, fez versos a respeito da escadaria de jade, ele descreveu tanto a paisagem física quanto o seu estado de espírito.

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Staiger ainda argumenta que o leitor deve estar alinhado ao ânimo do poeta, vibrando conjuntamente com os versos, pois assim a função lírica seria incutida ao interlocutor, que, receptivo, se comoveria. 

No entanto, para que aproveite o poema, não é necessário que antes da leitura o leitor esteja sentindo o mesmo que o poeta. Na verdade, é função do 1 month deca durabolin results escritor preparar o interlocutor, nos versos iniciais do poema, para o referido ‘alinhamento de ânimos’. 

Assim, desde que o leitor já tenha tido uma experiência parecida com a relatada no poema, a função lírica é receptada de forma mais fácil.

Por exemplo, você pode nunca ter lutado na guerra, mas já sentiu a dor. Você nunca viu a morte de um companheiro de batalha, mas já perdeu alguém que ainda ama. Você nunca viu eclodir uma guerra mundial, mas assiste aos noticiários e sente medo de vê-la pela primeira vez.

Nos poemas a seguir, você lerá sobre guerras que não viveu. Mas verá que ali existem sentimentos que você pode estar experimentando hoje e que serão responsáveis pelo seu alinhamento ao ânimo do poeta.

4 poemas para os tempos de guerra

1. A Espera – Ferreira Gullar 

Um grave acontecimento está sendo esperado por todos

Os banqueiros os capitães de indústria os fazendeiros
ricos dormem mal. O ministro
da Guerra janta sobressaltado,
a pistola em cima da mesa.

Ninguém sabe de que forma desta vez a necessidade
se manifestará:
se como
um furacão ou um maremoto
se descerá dos morros ou subirá dos vales
se manará dos subúrbios com a fúria dos rios poluídos

Ninguém sabe.
Mas qualquer sopro num ramo
o anuncia

Um grave acontecimento
está sendo esperado
e nem Deus e nem a polícia
poderiam evitá-lo.

Conforme já dito, o leitor deve ser preparado para o alinhamento dos ânimos. O poeta cumpre esta tarefa de sedução estabelecendo um tom ao poema ao longo de seus versos iniciais. Contudo, no poema ‘A espera’ Gullar precisou de apenas um verso para fixar o tom:

Um grave acontecimento está sendo esperado por todos

Direto. Seco. Como um anúncio, Gullar expressa a ansiedade e delineia uma tragédia desconhecida. Em seguida, uma imagem simples que corrobora ainda mais com a atmosfera de perigo: 

[…] O ministro
da Guerra janta sobressaltado,
a pistola em cima da mesa.

O arrepio na espinha até mesmo do ministro da Guerra é ocasionado pela dúvida. Ninguém sabe o que vai ocorrer e o desconhecido é amedrontador. Gullar ainda se beneficia da técnica da repetição para expressar o medo: 

Ninguém sabe de que forma desta vez a necessidade
se manifestará: […]
Ninguém sabe.

E repete a dose para reiterar a ansiedade: 

Um grave acontecimento está sendo esperado por todos
[…]
Um grave acontecimento
está sendo esperado
e nem Deus e nem a polícia
poderiam evitá-lo.

Ocorrerá mesmo uma guerra? A destruição em massa? Um furacão ou um maremoto? A bomba atômica? Ninguém sabe. 

2. O Mal – Arthur Rimbaud 

Enquanto esse cuspir vermelho da metralha
Silva no céu azul o dia inteiro, e logo,
Verdes ou rubros, junto ao Rei que os achincalha,
Tombam os batalhões em massa sob o fogo;

Enquanto a insânia horrenda arde num fogaréu
Cem mil homens e os deixa a fumegar, demente,
– Pobres mortos! na relva, ao sol do estio, em teu
Seio, Natura, ó tu que os criaste santamente!  –

– Existe um Deus, que ri nas toalhas dos altares
Num cálice dourado, entre incensos, e nesse
Tranqüilo acalentar de hossanas adormece;

E acorda quando as mães, morrendo de pesares,
Choram de angústia, sob o negro xale imenso,
E Lhe dão uma moeda, amarrada no lenço!

[Tradução de Ivo Barroso]

Este soneto do jovem Rimbaud de 16 anos foi escrito no ano de 1870, durante a guerra franco-prussiana. Aqui, o gênio rebelde denuncia a guerra, retrata imagens de horror e responsabiliza os detentores do Poder pelas mortes. 

Rimbaud começa o poema com uma metáfora (“cuspir vermelho das metralhas”) que denota nojo e ao mesmo tempo evoca o sangue, contrapondo-se à beleza do dia (“o céu azul”): 

Enquanto esse cuspir vermelho da metralha
Silva no céu azul o dia inteiro, e logo,

Denunciando o conflito em geral e responsabilizando, sobretudo, os políticos, o poeta não toma partido e deixa claro que a imagem de sofrimento representa tanto os batalhões prussianos (os verdes) quanto os franceses (os rubros): 

Verdes ou rubros, junto ao Rei que os achincalha,
Tombam os batalhões em massa sob o fogo;

O contraste é uma técnica recorrente de Rimbaud. Aqui, ele a utiliza principalmente relacionando cores. No entanto, na segunda estrofe, o poeta repete a técnica para também contrapor a morte com a natureza: uma pilha de homens arde numa fogueira sob a relva do verão. É o vermelho e o cinza sobre o verde, o horror sobrepondo a beleza:

Enquanto a insânia horrenda arde num fogaréu
Cem mil homens e os deixa a fumegar, demente,
– Pobres mortos! na relva, ao sol do estio, em teu
Seio, Natura, ó tu que os criaste santamente!  –

Em regra, os tercetos de um soneto trazem surpresa e resolvem as ideias apresentadas nos quartetos. Nos tercetos d’O Mal, Rimbaud é irônico e subversivo:

– Existe um Deus, que ri nas toalhas dos altares
Num cálice dourado, entre incensos, e nesse
Tranqüilo acalentar de hossanas adormece;

E acorda quando as mães, morrendo de pesares,
Choram de angústia, sob o negro xale imenso,
E Lhe dão uma moeda, amarrada no lenço!

É a imagem de Deus que nos surpreende. Um Deus sorridente, que ostenta indiferença, tranquilidade e ganância. Enquanto ele dorme em um acalanto de hosanas (metáfora irônica para os gritos de agonia dos soldados), seu sono é interrompido apenas para receber as moedas decorrentes do luto. Assim, os tercetos d’O Mal representam tanto a perda da fé diante das grandes tragédias, quanto a ganância da Igreja.

3. Sentimento do Mundo – Carlos Drummond de Andrade 

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite.

O sentimento do mundo foi publicado em livro homônimo em 1940, porém já tinha se mostrado ao público em cópia d’O Jornal, em 1935. Ou seja, o sentimento do mundo não é necessariamente sobre a Segunda Guerra Mundial, mas ainda assim é um poema de guerra.

Esses versos são de grande importância na carreira poética de Drummond, pois inauguram o livro que representa uma virada no ethos drummondiano: a leveza, a ironia, o ritmo alegre e a esperança são invertidos, carregando sua obra de negatividade.

O poema já inicia com versos de tom intimista e se aproxima do leitor com um verbo conjugado na primeira pessoa (“Tenho”), como se nos revelasse a fraqueza do poeta em uma conversa. Assim, o eu-lírico manifesta, por meio de antíteses, sua insignificância ao possuir apenas duas mãos enquanto suporta o sentimento de um mundo inteiro. Em seguida, Drummond apresenta uma metáfora polêmica: 

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos
minhas lembranças escorrem 
e o corpo transige 
nas confluências do amor. 

Ao evocar a imagem de escravos, o poeta multiplica as suas mãos e apresenta uma força maior para suportar o sentimento do mundo. Aqui, os escravos representam os seus poemas, e as imagens de trabalho e de sofrimento suscitadas pela palavra “escravo” são reforçadas pelo verso seguinte, pois o eu-lírico revela que suas lembranças saem de seu corpo e escorrem, qual fossem suor. 

Percebe-se então que a poesia drummondiana frequentemente parte da esfera individual para a universal. Seus problemas pessoais são postos no papel e se misturam às desgraças do mundo. 

E Drummond repercute esse movimento de ampliação ao longo de seus versos: as mãos se multiplicam (“tenho apenas duas mãos […] mas estou cheio de escravos”); o indivíduo é pouco para o sentimento do mundo; e as imagens do ‘eu’ passam sempre para uma coisa maior (“quando [eu] me levantar, o céu estará morto e saqueado // quando os corpos passarem, eu ficarei sozinho”). É o poeta minúsculo que se põe em relação ao todo, e a sua arma é a poesia. 

Como um prelúdio do fim, Drummond escolheu uma imagem de tragédia: os corpos passam, e o eu-lírico sobrevivente fica apenas com a memória. E enquanto se esperava que a memória fosse de seus conhecidos, ele tem o sentimento do mundo e desfia recordação do sineiro, da viúva e do microscopista, que parecem distantes do eu-lírico. 

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite.

E, fechando o poema, um dístico é derivado diretamente da estrofe anterior. Foi preciso destacar que o amanhecer (o futuro) é sombrio. Assim Drummond toma consciência da desesperança e inaugura uma nova fase na sua poesia. 

4. O Adormecido no Vale – Arthur Rimbaud 

É um vão de verdura onde um riacho canta
A espalhar pelas ervas farrapos de prata
Como se delirasse, e o sol da montanha
Num espumar de raios seu clarão desata.

Jovem soldado, boca aberta, a testa nua,
Banhando a nuca em frescas águas azuis,
Dorme estendido e ali sobre a relva flutua,
Frágil, no leito verde onde chove luz.

Com os pés entre os lírios, sorri mansamente
Como sorri no sono um menino doente.
Embala-o, natureza, aquece-o, ele tem frio.

E já não sente o odor das flores, o macio
Da relva. Adormecido, a mão sobre o peito,
Tem dois furos vermelhos do lado direito.

[Tradução Ferreira Gullar]

Este é mais um poema de Rimbaud escrito em 1870, quando o adolescente protestava contra a guerra. 

Novamente, o poeta utiliza contrastes para enriquecer seus versos. E, mais uma vez, o principal contraste utilizado é o da morte e da natureza, que se faz presente desde o primeiro quarteto até o último terceto. 

O soneto inicia com uma imagem isolada da natureza. Numa descrição quase onírica, Rimbaud dá cor (o verde, a prata, o amarelo, o branco) e movimento aos versos (um riacho que canta e deságua, as gotículas se espalham na grama enquanto o sol desata):

É um vão de verdura onde um riacho canta
A espalhar pelas ervas farrapos de prata
Como se delirasse, e o sol da montanha
Num espumar de raios seu clarão desata.

Em destaque, estão a assonância (repetição de uma vogal) e a aliteração (repetição de uma consoante), que o tradutor Gullar conseguiu manter nessa versão do poema. Esses recursos, além de ajudar na sonoridade do poema (melopeia), se juntam ao quadro e interligam seus elementos, passando de uma imagem à outra com suavidade (fanopeia).

No verso seguinte, l’enfant terrible introduz um sujeito novo: um soldado, que parece descansar. Sem a boina militar, um sorriso sutil no canto do rosto, ele deita na relva refrescante e toma um banho de sol. Seus pés estão entre lírios (gladíolos, no texto original) e o poeta pede para que a Natureza o acaricie. 

No entanto, essa imagem doce sofre uma revolução, quando nos é revelado de forma brusca, na última estrofe (talvez apenas no último verso), que aquele soldado, na verdade, está morto:

Com os pés entre os lírios, sorri mansamente
Como sorri no sono um menino doente.
Embala-o, natureza, aquece-o, ele tem frio.

E já não sente o odor das flores, o macio
Da relva. Adormecido, a mão sobre o peito,
Tem dois furos vermelhos do lado direito.

Quando a morte do soldado se revela, todos os elementos anteriores de tranquilidade, beleza e paz são destruídos e transformados em tristeza e dor. O soldado foi morto com dois tiros de bala. Rimbaud destrói a atmosfera onírica dos versos anteriores com violência gráfica e rítmica. E assim o poeta mostra o resultado da guerra: a transversão da beleza e da paz em morte e em tristeza.  

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