Poemas

Análise: “A Pantera”, um poema de Rainer Maria Rilke

A Pantera é um poema escrito entre 1902 e 1903 pelo poeta alemão Rainer Maria Rilke. Neste artigo, Ighor Valentim, que traduziu o poema para o português, faz uma análise sobre os aspectos que tornam este poema único e conta alguns dos critérios utilizados para a tradução.

O poema

A Pantera

No Jardin des Plantes, Paris

De muito avançar entre as barras, sua vista
Está tão cansada que já não agarra.
Para ela é como se existisse mil barras,
E além das mil barras, nada mais avista.

E o leve andar de seus firmes e ágeis passos,
Rodando em ciclos cada vez mais escassos,
feito uma forte dança ao redor do meio
Onde resta dormente o seu grande anseio.

As vezes o véu das pupilas lentamente
Desliza —, para que adentre uma visão
Que segue seu corpo, absorto e silente, —
Chega e fenece no coração.

(Tradução de Ighor Valentim)

Der Panther

Im Jardin des Plantes, Paris

Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe
so müd geworden, daß er nichts mehr hält.
Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe
und hinter tausend Stäben keine Welt.

Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte,
der sich im allerkleinsten Kreise dreht,
ist wie ein Tanz von Kraft um eine Mitte,
in der betäubt ein großer Wille steht.

Nur manchmal schiebt der Vorhang der Pupille
sich lautlos auf — Dann geht ein Bild hinein,
geht durch der Glieder angespannte Stille —
und hört im Herzen auf zu sein.

Análise do poema

A estrutura do poema salienta a mudança de pontos de vista.

A pantera é sempre referida em terceira pessoa, também há na terceira pessoa o sujeito que se oculta: um espectador a observar e a descrever a jaula e a pantera.

Note: os momentos que parecem expressar a visão da pantera são feitos na terceira pessoa. Da mesma forma, esses mesmos verbos podem ser aplicados para o sujeito que observa a pantera. Suas reações se confundem com as da fera.

E disso surge a metáfora maior que circunda o poema. Será que estamos falando de um felino, criatura diversa a um ser humano? Ou será que estamos espelhando uma realidade humana naquilo vivido pela pantera?

O que sabemos de certo é que a pantera surge de uma visão tida pelo espectador, essa visão é uma impressão de momento. Percebam essas duas palavras: impressão e momento.

Muitas vezes a poesia é comparada com um retrato que imortaliza um momento. Vemos algo belo fadado a morrer no tempo, e como a beleza nos incitar o amor por tal objeto, queremos guardá-lo na memória, para mostrar aos outros tamanha beleza.

Foi o próprio Rilke, nas Cartas a um Jovem Poeta, quem disse que a obra de arte nasce da necessidade. E foi Platão que nos ensinou que amar é procriar na beleza para a eternidade.

Por outro lado, vemos o termo impressão. Algumas das definições dicionarizadas desse termo são: “Ação de objetos exteriores sobre os órgãos dos sentidos”; “Abalo, agitação, comoção produzida no espírito.”; “ideia recebida”.

Lembremos que Rilke viveu entre pintores impressionistas ou pós-impressionistas: foi amigo de Paul Cézanne, aluno e secretário de Rodin. Os dois livros dos Novos Poemas, no qual A pantera está incluso, são do tempo em que Rilke recebeu a maior influência desses gigantes. O poeta capta o objeto real com seus olhos, sua mente, sua realidade própria.

Notas sobre a tradução

Para começar, precisamos perceber o ritmo estabelecido no original. A pantera foi escrita em pentâmetros iâmbicos, isto é, uma sílaba fraca seguida de uma sílaba forte, estabelecendo o ritmo em um: tuTÁ, tuTÁ, tuTÁ (…).

Esse ritmo coincide com as imagens dos versos: a batida do coração em que o poema termina, a dança circular ou os passos da pantera dentro de sua jaula.

Outro recurso rítmico é a dança própria da sucessão de versos masculinos e femininos. Ou seja, o verso terminado em palavra paroxítona (como em ‘escasso’) sucedido por outro verso terminado em oxítonas (como ‘coração). O ritmo é marcado por esses ciclos em torno do poema.

Como traduzi-los ao português sem perder a imagem ou o sentido?

Há um problema em manter o ritmo original na tradução: o iâmbicos (aquele ritmo tuTÁ tuTÁ, uma sílaba fraca seguida de uma forte) não soam em português da mesma maneira que soam no alemão, pois esse ritmo tende a ser artificial na língua portuguesa.

A ideia que me veio originalmente foi a utilização do pé anfíbraco (isto é, uma sílaba forte entre duas fracas), junto o acréscimo de uma sílaba poética. Assim, o ritmo do poema se tornou uma espécie de tuTÁtu, tuTÁtu (…).

Algumas vezes, quebrei o ritmo para manter a clareza das imagens, a ordem em que são mostradas e o sentido que se esconde por trás delas. Tal escolha me pareceu ser a mais sensata para que o poema se aproximasse do poema original.

Além disso, com a mudança do ritmo, alonguei os versos, que originalmente eram decassílabos e se transformaram em hendecassílabos (versos de onze sílabas).

Estrutura e Vocabulário: situação, ação/nó e desenlace.

O poema é composto em três quadras, cada uma dividida pelas imagens e metáforas que trazem. Também podemos recortar o poema em 4 períodos frasais – tendo um elemento a ser destacado no último. Ainda, as estrofes também se distinguem por seu vocabulário e sua construção.

A primeira estrofe é formada por dois períodos que giram sobre o mesmo tema: a jaula. Essa feita por grades ou barras (Stäbe). Não é à toa que essa palavra é repetida três vezes: ela mostra que ali não há mundo para além dessas, elas se tornam o mundo e esse se rebaixa a mera prisão. A fera, imponente na selva, torna-se uma prisioneira nesta realidade. Contudo, o poema não começa com barras, começa com o olhar, a vista (Blick): a palavra visão é destacada no primeiro verso, é o sujeito da oração. Ainda nas duas orações do mesmo período é necessário o uso dos verbos avançar [Vorübergehen; formado pelo verbo ir (gehen) e o dois prefixos vor (frente), über (além)] e agarrar [halten, podendo ser traduzido como pegar, segurar algo ou agarrar alguém ou uma presa]. Ambos trazem a ideia da fera avançando sobre sua caça. O segundo período estabelece o limite do campo visão: as barras. O mundo se torna barras. Nesse ponto notemos o uso do verbo geben/gäbe (dar, aqui traduzido como existir/ existisse): no alemão o verbo também possui o sentido conceber, ter consciência, imaginar. Traduzindo da forma mais literal o possível os versos seriam: “ Para ela, é como se só se concebesse barras/ e para além barras, mundo algum”. Daí a conclusão: não há nada além da jaula, não há mundo (Welt, palavra que encerra a estrofe).

A segunda estrofe nos apresenta os passos ritmados, a dança. Notem no primeiro verso da segunda estanza as sílabas acentuadas confundem-se com as sílabas longas, parece o saltos de uma bailarina. E o uso dos adjetivos é acertado nesse ponto: são adjetivos utilizados para qualificar os passos fortes ou suaves da dança. E a dançarina gira ao redor do palco em círculos cada vez menores. Se trata de um ser poderoso. Como nos fala o poeta, essa é uma dança de força, poder (Kraft). E então voltamos a ver a pantera, esse ser poderoso na natureza; e aqui seu poder fica constrito entre as barras.

E assim chegamos à conclusão inevitável, o força vai sumindo. Só resta um relance que some entre os batimentos finais de um coração. O terceiro parágrafo é construído de modo que não sabemos se estamos falando da pantera ou se o espectador conta sua própria reação. Há substantivos (pupilas, corpo ou membros, coração), mas não sabemos de quem: se da fera que definha ou do espectador impressionado. Vemos o personagem morrendo no palco, e o espectador sendo afetado pelo espetáculo. Percebe-se uma relação distante entre observar o que ocorre num palco de teatro e observar uma fera numa jaula de zoológico.

E não há como não notar que o poema parece repetir uma estrutura narrativa simples: a primeira estrofe nos estabelece uma ação; a segunda nos estabelece uma ação e um nó ou problema; e a última o desenlace ou conclusão. Nos parece uma peça reproduzida em um balé que nos conta uma história em que o personagem principal realiza passos cada vez mais oscilantes. Vemos a tragédia do personagem principal e seu contínuo enfraquecimento. E tudo isso acaba em um verso incompleto.

7 Comentários

    • Fernando Marques

      Muito bons, a tradução (falo do resultado rm português) e o comentário feito pelo tradutor. Peço licença para apontar um porém (não sei se intencional): no terceiro verso da primeira estrofe, o melhor é “existissem mil barras”, com o verbo no plural a acompanhar o sujeito. E não alteraria o metro.
      Parabéns.

  • Raquel Pereira Carvalho

    Olá,
    Sempre que lemos um poema, nossa percepção da vida, nossas emoções se fundem com a do autor. Muitas vezes ,aquilo que você pensou e digeriu não foi totalmente o que o poeta quis dizer…
    E sinto que não há certo ou errado…
    Lendo o mesmo poema passando de alma e alma vivências e vivências, muitas vezes as interpretações podem ser diferentes. E outras vezes concordarem plenamente. Cada pessoa leva o seu mundo. E tudo bem!
    Eu gosto muito de depois de ler o poema e senti- lo do meu jeito.
    Procurar outros pareceres do autor e de outros leitores.
    Eu gosto muito.
    Mas isso é meu, minha opinião.
    O bom mesmo é gostar de senti – Los
    ????????

  • Raquel Pereira Carvalho

    Olá,
    Sempre que lemos um poema, nossa percepção da vida, nossas emoções se fundem com a do autor. Muitas vezes ,aquilo que você pensou e digeriu não foi totalmente o que o poeta quis dizer…
    E sinto que não há certo ou errado…
    Lendo o mesmo poema passando de alma e alma vivências e vivências, muitas vezes as interpretações podem ser diferentes. E outras vezes concordarem plenamente. Cada pessoa leva o seu mundo. E tudo bem!
    Eu gosto muito de depois de ler o poema e senti- lo do meu jeito.
    Procurar outros pareceres do autor e de outros leitores.
    Eu gosto muito.
    Mas isso é meu, minha opinião.
    O bom mesmo é gostar de senti – Los
    ????????

  • Fernando Marques

    Muito bons, a tradução (falo do resultado em português) e o comentário feito pelo tradutor. Peço licença para apontar um porém (não sei se intencional): no terceiro verso da primeira estrofe, o melhor é “existissem mil barras”, com o verbo no plural a acompanhar o sujeito. E não alteraria o metro.
    Parabéns.

  • Fernando Maioni

    Falo do poema. A pantera vai perdendo o seu sentido de ser, é como se a grade em sua volta fosse cumprimindo-a bem lentamente e com isso o seu ímpeto natural de defesa vai se apagando…

    Fico imaginando o martírio que é os animais nos zoológicos nos entretendo.

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