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Análise: “A Casa do Carmo de Minas”, um poema de Emmanuel Santiago

Certa vez, o Brian comentou que o poema A Casa do Carmo de Minas é a Máquina do Mundo dessa geração. Com essa fala, ele estava considerando o poema do Emmanuel Santiago o melhor já escrito por essa geração.

Mas o que essa comparação quer dizer? E o que há de especial neste poema que o torna tão melhor que outros tantos de sua geração (e do próprio autor)?

Neste artigo, veremos alguns aspectos que se destacam no poema do mineiro. Antes de fazer uma análise do poema, leia com atenção:

O poema

A casa, que agora definha,
emerge do pó da memória;
com ela, uma flora de seres,
que o tempo, faminto, devora.

Ninguém na varanda sentado
às luzes da tarde, mais brandas;
lá dentro, desandam as trevas,
não resta sequer uma lâmpada.

Não se ouve, da porta maciça,
nem rumor de vida remota.
As janelas? Todas seladas
(as gentes daqui estão mortas).

Mas imaginemos, num átimo,
cruzarmos a porta assim mesmo,
entrando no reino das sombras,
onde toda soma é de menos.

Sintamos, então, os odores
a se desprenderem do chão:
a putrefação do que é úmido,
madeira sabendo a caixão.

Vagando entre vultos solúveis,
os olhos mergulham no escuro
— ácido sulfúrico: denso,
corrói os contornos de tudo.

Os olhos reagem e, aos poucos,
restituem corpo às imagens,
que, transpondo as margens do tempo,
se tornam vertigem, voragem

(ou será, talvez, a memória,
enredada em tantos porquês,
dando nitidez aos fantasmas
daquilo que já se desfez?)

A casa destila segredos
(quem se atreveria em ouvi-la?);
só pontos e vírgulas, pois
não mais reconhecem a língua.

Em busca de abrigo, a visão
pousa sobre móveis antigos,
mas tudo é perigo e presságio…
Móveis ou seriam jazigos?

Tanto pó, num manto diáfano,
eleva-se no ar feito um cântico,
envolvendo os cantos da casa,
então conhecida, em espanto.

Paira, sobre a sala, o passado
e não há mais como acordá-la;
um mundo que cala e desvie,
mostrando o contrário das fábulas:

o sofá, a velha TV,
dois pedestais (peças parelhas)…
Coisas que assemelham aranhas
urdindo silêncios, alheias.

No primeiro quarto da casa,
resquícios de um tempo inexato,
desfeitos em cacos no chão,
se juntam num todo compacto.

Lentas, as lembranças se arrastam
cheias de torpor, sem substância;
algumas avançam mais pálidas,
do tempo em que foste criança.

Muitas as insônias, os sonhos
que vêm, displicentes, à tona,
criando uma zona fluida,
onde tudo que é morto retorna.

No quarto vazio, desaguam
os múltiplos cursos de um rio,
esse descontínuo fluir,
que é o tempo tramando seus fios.

Já nos outros dois quartos, soam
acordes que a morte compôs;
cantando sem voz se percebem
a madrinha, a mãe, tio-avô.

A penteadeira reflete
a sombra de alguma caveira?
Somente quimeras furtivas,
cruzando, da mente, as fronteiras.

E o que nos armários se esconde
com tanto pudor funerário?
O que de tão raro ocultam?
Sarcófagos ou relicários?

Se vamos aos fundos da casa,
o grande quintal moribundo
não gera seus frutos antigos;
agora só crescem os fungos.

Na terra já negra, raízes
murcham e depois desintegram;
vão cedendo às regras da morte,
cansadas da inútil refrega.

Mesmo o abacateiro imponente,
suportando um século inteiro,
degrada-se, feio e curvado,
em mudo e senil desespero.

Voltemos daqui do passeio
por este pomar decaído,
pois tudo que é findo reclama
direito de ser esquecido.

Com sua maligna presença,
o tempo, que a tudo impregna,
converte em ruína o que resta
da casa de Carmo de Minas.

Um poema com sotaque

Algo curioso que podemos perceber, logo na primeira leitura, é o sotaque. Lembra que destacamos, na introdução, que o poeta é mineiro, assim como Drummond? Essa não é uma mera informação biográfica.

É claro que a palavra escrita não tem literalmente sotaque — são apenas riscos em um papel. Mas, quando lemos “A casa de Carmo de Minas”, é possível identificar um interessante traço de oralidade do eu lírico, na última estrofe:

“Com sua maligna presença,
o tempo, que a tudo impregna,
converte em ruína o que resta
da casa de Carmo de Minas.”

A pronúncia normativa da palavra é “imprÉgna”. Mas, se você ler essa estrofe de um jeito normativo, surgem duas questões:

  1. Todos os versos possuem oito sílabas poéticas. Por que apenas o segundo teria sete?
  2. Por que essa estrofe, diferente de todas as 24 estrofes anteriores a essa, ficaria sem a rima entre o segundo e o quarto versos?

Ao perceber essa estranheza, se atente ao seguinte: o poema fala de uma casa em Carmo de Minas, no interior de MG. É sabido que, diferente da pronúncia normativa, a palavra é pronunciada popularmente como “impreguina” — pela dificuldade para se pronunciar o encontro de consoantes (G e N), é comum adicionar uma vogal, o que é chamado de “anaptixe” ou “suarabácti”.

Ao se dar conta do sotaque do poema, tudo faz sentido: ele soa perfeitamente bem.

A base do poema é o efeito

Se forçarmos a comparação entre a máquina do mundo de Drummond e o poema do Emmanuel, podemos até perceber certa convergência temática, considerando que o poema de Drummond fala do tempo e de questões filosóficas da vida. Porém, acredito que “A casa do Carmo de Minas” está muito mais próxima de “Evocação do Recife”, poema do Manuel Bandeira.

Edgar Allan Poe ensina, na Filosofia da Composição, que a base do poema é o efeito. Utilizando a palavra, o que o poeta almeja é alcançar a beleza – a beleza não como uma qualidade, mas como um efeito.

O poeta, ao escrever um poema, escolhe um sentimento (como o medo, o arrependimento, a saudade) e o elege como alvo para o qual suas imagens e palavras devem apontar. O leitor não percebe esse processo, mas, ao fim da leitura dos versos, recebe o efeito que o poeta produziu, que o poema alcançou.

Penso que as leituras d’A Casa do Carmo de Minas e do Evocação do Recife provocam um mesmo efeito no leitor. O passeio oferecido nos versos do Emmanuel transmitem a sensação de acolhimento: conhecemos desde a varanda ao quintal, passando pela porta, pelo sofá, pela TV, pela penteadeira e até pelo abacateiro. Bandeira, por sua vez, para passar a mesma sensação, cita cada canto do Recife, a Rua da União, a Rua da Aurora, o Capiba(be)ribe e a casa de seu avô. 

Esses poemas funcionam como lembretes da morte: a partir de suas leituras, aprendemos a finitude da vida. Bandeira lembra de um Recife que já não existe – aquele de sua infância em que os acontecimentos da vida eram todos lúdicos. Emmanuel, para passar a mesma mensagem, prefere mostrar o vazio, a decadência e a monocromia de locais antes coloridos e movimentados.

Um passeio

É claro que a grandeza d’A Casa de Carmo de Minas não se limita à semelhança com o poema de Manuel Bandeira. Emmanuel apresenta um arsenal de técnicas e imagens, a começar pela escolha de narrar um passeio por todos os cantos da casa seguindo a lógica geográfica do espaço: na introdução, o poeta fala da casa como um todo, depois da varanda e, por último, das suas janelas e portas, por onde a imaginação do narrador e do leitor entrarão para conhecer o ‘reino das sombras’. É como se o narrador pegasse em nossas mãos e nos levasse para passear.

É uma escolha inteligente: assim, o alinhamento de ânimos (stimmung) é facilitado, já que o leitor se aproxima do que é narrado por meio de sugestões diretas. Isso explica o uso de verbos no imperativo da primeira pessoa do plural (que inclui tanto o narrador quanto o leitor), seguido de verbos conjugados no presente. Na prática, isso significa que os versos nos guiam, mostrando os objetos e os cômodos enquanto os explica:

Mas imaginemos, num átimo,
cruzarmos a porta assim mesmo,
entrando no reino das sombras […]
Os olhos reagem e, aos poucos,
restituem corpo às imagens […]
Em busca de abrigo, a visão
pousa sobre móveis antigos,
mas tudo é perigo e presságio…
[…]

Se nos sentimos parte da narrativa e, a partir de sugestões diretas, estamos imaginando cômodos de uma casa abandonada, é evidente que a nossa tendência é misturar as imagens sugeridas com outras que guardamos em nosso imaginário – sendo possível imaginar a nossa própria casa naquelas condições no futuro, ou mesmo a casa dos nossos avós atualmente. O processo chega a ser explicado no próprio poema:

Lentas, as lembranças se arrastam
cheias de torpor, sem substância;
algumas avançam mais pálidas,
do tempo em que foste criança.

Muitas as insônias, os sonhos
que vêm, displicentes, à tona […]

A aproximação do narrador em direção ao leitor é tão consciente e sutil que quase não percebemos que, por vezes, o narrador se exclui e passa a falar diretamente com o seu leitor, a partir do tempo verbal conjugado na segunda pessoa: “do tempo em que foste criança”. 

As metáforas d’A Casa do Carmo de Minas são simples, concisas e carregadas de função e significado. Ao aproximar o piso de madeira ao caixão, o poeta também evoca o cheiro e a umidade do local, enriquecendo a imagem com o convite aos outros sentidos: 

Sintamos, então, os odores
a se desprenderam do chão:
a putrefação do que é úmido,
madeira sabendo a caixão.

‘No reino das sombras’ daquela casa abandonada, as trevas têm textura líquida, pois ali mergulhamos os olhos; mas, como explica o poeta a partir de uma metáfora em aposição, o escuro é ácido sulfúrico:

Vagando entre vultos solúveis,
os olhos mergulham no escuro
– ácido sulfúrico: denso,
corrói os contornos de tudo.

Há outros elementos que merecem destaque em seus versos. Seria pretensioso dizer que eu conseguiria elencá-los aqui, pois ainda não esgotei a leitura deste poema. No entanto, talvez isso seja um sinal de que “A casa do Carmo de Minas” é uma das grandes obras dessa geração de poetas. Estou convicto de que é um dos melhores poemas memento mori já feitos. 

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