Críticas

Crítica: “A Ave Lúcifer”, livro de Emmanuel Santiago

Estabelecendo o tom

Eu não acompanhava quase nada da poesia contemporânea até 2020, quando o Ave Lúcifer, do Emmanuel Santiago, foi lançado. Esse livro se tornou a minha obra contemporânea favorita, pois, além de sua qualidade indiscutível, mudou a minha opinião a respeito da poesia que está sendo produzida no Brasil e, por isso, creio que tenha me influenciado indiretamente a fazer parte deste blog. Então nada mais justo do que fazer uma crítica ao livro A Ave Lúcifer.

Na época em que comecei a ler os poemas do Emmanuel, como um leitor de Baudelaire, percebi semelhanças temáticas entre ambos e fiquei ainda mais interessado. Depois, descobri que o poeta francês era uma influência declarada: na terceira seção do livro, o Soneto Decadentista escancara em seus tercetos:

[…] Em madrugadas como esta, de tédio e de insônia
concebo uma visão fascinante e medonha:
chega perto de mim um vulto de mulher

altivo e decadente, arcanjo e prostituta,
que me oferece, atroz, um gole de cicuta;
eis a Musa – não é? – meu brother Baudelaire.

A influência não se mostra apenas pela menção direta do nome do poeta francês, mas também pela ambientação urbana e mal esperançosa (um tableau paulista); pelo tom sombrio de ódio e spleen; pela imagem do pombo, que como o albatroz – comique et laid – é estúpido e está ferido; pela evocação do céu como campa, tão recorrente nas Flores do Mal; pelo metro alexandrino, de excelência francesa; e pela representação maldita do mundo oferecida pela Musa que, ao mesmo tempo, é arcanjo e prostituta. 

Então, essa Musa, que oferece veneno aos seus poetas, é quem vai inspirar os poemas do Ave Lúcifer. Vendo assim, fica mais fácil de entender o tom geral deste livro. Na verdade, melhor dizendo, Emmanuel Santiago apenas nos apresenta à Musa no Soneto Decadentista, mas a função do estabelecimento de ânimo do livro fica a cargo d’A legenda de Robert Johnson, poema-seção de abertura. 

Acredito que esse poema dá várias chaves interpretativas e justificativas para a unidade do livro. Nele, o tom sombrio e diabólico pouco tem da homenagem: é como se Emmanuel o utilizasse como um prisma de interpretação da realidade. Isto é, a Musa inspira histórias de horror no poeta não porque ama o caos, mas sim por vê-lo como a realidade mesma. Assim, o livro é maldito por se considerar realista: ele apenas conta a história dos homens. Pois como, em terza rima, o demônio chega a explicar, os homens são os culpados pela desgraça do mundo: 

[…] Lúcifer, meu nome,
Tamanho e tão intenso era meu brilho,

Mas o ressentimento, que consome
até mesmo o ser mais belo e sublime,
cegou-me quando Deus inventou o homem,

criatura desprezível que suprime
do mundo qualquer senso de harmonia
espalhando feiura, torpe crime!

Não é à toa que o horror descrito em poemas como Álbum de férias em Abu Ghraib, 9525, e Corte e Costura são executados por homens, e não pela figura do demônio. É que Lúcifer, eterno e condenado ao tédio, teve seus poderes limitados, mas sequer precisaria deles para que o caos fosse instalado, já que a própria criatura do Senhor é quem faz o trabalho:

[…] Prisioneiros cobertos de fezes,
co’a cabeça metida em capuzes,
numa feia e cruel catequese,
estendiam os braços em cruzes. […]

Todos riam de ver os detentos
definhando por baixo dos gorros,
sem dormir, sobre o chão de cimento,
assustados por feros cachorros. […]
(Álbum de férias de Abu Ghraib)

Num gesto de fúria
santa (santa porque
pura) mergulho no abismo
com minhas asas germânicas; […]
e arrasto comigo o rumor
de cento e cinquenta pessoas
desesperadas. E um jardim
de cabeças
decepadas
brotará sobre meu túmulo.
(9525)

 Diante disso, feito uma ave, resta a Lúcifer, de um local privilegiado, assistir ao incêndio do mundo em ‘toneladas de enxofre e fogo’ pelo pecado dos homens. O poema As mulheres de Sodoma resume todo esse cenário em seus versos finais: 

[…] hoje, ardem sobre a cidade de Sodoma
numa espúria alvorada sulfúrica, estúpida.

A técnica dos versos 

Emmanuel Santiago é facilmente o poeta vivo com o maior domínio técnico da poesia. Os seus poemas são perfeitamente metrificados. Porém, saber contar sílabas não basta para um poeta, é preciso que a melopeia seja bem desenvolvida, ao ponto em que as sílabas fortes das palavras caiam nas posições certas do verso ao longo de todo o poema.

Indo além, é necessário que esse ritmo gerado case com o conteúdo do poema. Por exemplo, no Soneto Sáfico, seus versos de conteúdo lésbico (sáfico), também produzem um ritmo sáfico – aquele decassílabo cujas sílabas fortes estão nas posições 4, 8 e 10: 

Quando te vi sobre o veludo rubro,
entre os lençóis de seda de uma cama,
onde teu corpo virginal se inflama
em fogo brando no calor de outubro, […]

Às vezes, essa convergência entre ritmo e conteúdo não é tão óbvia. No Construindo a madrugada, enquanto se explica que a madrugada é construída pela sobreposição e compactação, as elisões e sinéreses demonstram esse método a partir do som das palavras:

Constrói-se a madrugada por camadas
que vão se sobrepondo nos andaimes […]
concentrando-se até chegar ao ponto
da estrutura compacta d’um diamante.

Isto é, o poeta utiliza a métrica a seu favor e aplica, às palavras, a compactação do método de formação da madrugada: a elisão em “da + estrutura” que soa como “d’estrutura”, o “de + um” que soa como “d’um”,  e a sinérese que força a compactação da palavra  “di-a-mante”, fazendo-a soar como “dia-mante”. Compacto. 

Ainda nos versos metrificados, o Emmanuel, como um grande conhecedor da história da literatura e da teoria literária, esbanja o seu conhecimento. Por vezes, o poeta parece brincar com a tradição, subvertendo-a ironicamente. Por exemplo, enquanto todos as seções da Legenda de Robert Johnson são compostas por quadras de redondilhas maiores – forma muito popular e fluida –, na parte VII do poema, intitulada ‘A história do Satanás’, Emmanuel decide utilizar a terza rima para dar voz à Lúcifer. Pela tradição, sabemos que a terza rima muitas vezes foi reservada para os assuntos ditos “superiores” e muito é associada à Divina Comédia de Dante. Assim, faz todo o sentido utilizar uma forma popular para a parte narrativa do poema, em que se conta os episódios de Robert Johnson e reservar a terza rima para o monólogo do diabo – evidenciando, assim, um claro distanciamento entre as personagens. 

Em outros casos, como no poema “Havendo Paz Eu Me Rebelo”, Emmanuel delineia um cenário medieval não apenas com imagens, mas também com elementos próprios do poema, como o metro octossílabo com um icto medial (acento forte na quarta sílaba do verso). O poeta emula um poema sirventês – que, conforme explica Spina, consiste num poema satírico, sem metro e estrofação definidos, no qual se faz um elogio a um senhor ou aos feitos de armas de um guerreiro. Nessa última categoria, se destacava Bertran de Born, a quem Emmanuel parece fazer referência, pois “Havendo Paz Eu Me Rebelo” é um poema essencialmente bélico. É curioso notar que o protagonista do poema tem natureza caótica, a quem o amor deve se dedicar apenas à guerra em si — por isso, o cavaleiro odeia a paz; por isso, ele mata independentemente da classe social de suas vítimas, não se identificando nem como um nobre, tampouco como um fraco camponês. Além disso, no campo da tradição, de forma subversiva e irônica, Emmanuel Santiago constrói um elo entre as letras de rock de Mick Jagger e a poesia medieval (que hoje sobrevive, principalmente, por conta da Academia) — atitude que irritaria qualquer erudito devoto a Bach:

Said my name is called Disturbance
I’ll shout and scream
I’ll sill the King
I’ll rail at all his servants
MICK JAGGER & KEITH RICHARDS, “Street fighting man”

Havendo paz, eu me rebelo
E, então, empunho minha espada,
Terso dos pés até o cabelo,
Que neste mundo não há nada
De mais horrendo e de mais belo
Do que uma liça encarniçada. […]

Porém, não é só o verso metrificado que se destaca na Ave Lúcifer. O verso livre é utilizado em grande parte do livro e é composto de forma consciente. Aqui, novamente, a melopeia se sobressai. De forma parecida aos métodos de composição do inglês antigo, Emmanuel Santiago parece lançar o ‘português aliterativo’ – em que o verso parece se desenrolar naturalmente do novelo da assonância e da aliteração. Não quero dizer que outros poetas mais antigos não tenham utilizado a aliteração na poesia, pelo contrário, esse recurso é muito utilizado e sempre foi empregado pelos poetas. No entanto, Emmanuel Santiago parece ser um dos únicos poetas a basear toda a sua técnica do verso livre, majoritariamente, na aliteração, na assonância e na semelhança entre as palavras. Poemas inteiros são escritos assim:

O amor começa
entre carícias
e escarificações.

A pele é apenas
a primeira fronteira do
prazer; é preciso trespassá-la […]

prefiro, por isso o gélido
arrepio da gilete riscando
a pele; delicada caligrafia. […]
(Corte e costura)

Voltando ao assunto da convergência entre ritmo e conteúdo, o poema Acalanto delira, e sua dicção acompanha ‘a voz confusa do cansaço’, ao empregar perfeitamente essa espécie de português aliterativo: 

[…] ouvir a música feérica
das esferas, o brilho
estridente das estrelas, o
canto da lua apascentando
as marés murmurantes. […]

existir dentro do sono,
do sonho, esquecer-se de ser
por alguns instantes que sejam;
cessar, enfim, o pensamento,
a voz confusa do cansaço.

Em alguns momentos, o verso livre de Emmanuel muito me parece o verso livre de Gerardo Mello Mourão. Eu sei que, provavelmente, não há nenhuma ligação entre ambos, são poetas de ethos totalmente diferentes. No entanto, essa semelhança entre poetas tão diferentes mostram como a utilização da mesma técnica por pessoas diversas geram resultados únicos de essência compartilhada:

[…] Em maranhões emaranhados
no chão de couro pelas paraíbas
piauís pernambucos siarahs […]

Seca ao sol o couro cru […]

[…] Dedos de couro dáctilos de calo grosso
refinam, na palheta de chifre, redondas redondilhas de pelica

ao coro do couro dos encourados
camurças de sete sílabas. (Suítes do Couro, Algumas partituras)

O Grande Poema

A Ave Lúcifer é um livro repleto de poemas que eu consideraria geniais. O soneto sáfico, o cabralino, A rola, Mefistófeles e as Fábulas Burlescas com certeza ficarão marcados como favoritos pelo público e como grandiosos tecnicamente pelos acadêmicos. 

Porém, como comentou um amigo e antigo mestre, o poema A Casa do Carmo de Minas rouba toda a cena e é a Máquina do Mundo dessa geração. Sei que, com essa fala, sua intenção era considerar o poema do Emmanuel como o melhor já escrito por essa geração até agora. Se forçarmos a interpretação desses poemas, em alguns momentos, podemos até  perceber certa convergência temática, considerando que o poema de Drummond também fala do tempo e das questões mais filosóficas da vida. No entanto, no meu entendimento, a Casa do Carmo de Minas está muito mais próxima da Evocação do Recife, poema do Manuel Bandeira.

Edgar Allan Poe ensina, na Filosofia da Composição, que a base do poema é o efeito. Isto é, utilizando a palavra, o que o poeta almeja é alcançar a beleza – a beleza não como uma qualidade, mas como um efeito. Dessa forma, o poeta, ao escrever um poema, escolhe um sentimento (como o medo, o arrependimento, a saudade) e o elege como alvo para o qual suas imagens e palavras devem apontar. O leitor não percebe esse processo, mas, ao fim da leitura do poema, recebe o efeito que o poema alcançou e que o poeta produziu.

Penso que as leituras d’A Casa do Carmo de Minas e do Evocação do Recife provocam o mesmo efeito no leitor. O passeio oferecido nos versos do Emmanuel transmitem a sensação de acolhimento: conhecemos desde a varanda ao quintal, passando pela porta, pelo sofá, pela TV, pela penteadeira e até pelo abacateiro. Bandeira, por sua vez, para passar a mesma sensação, cita cada canto do Recife, a Rua da União, a Rua da Aurora, o Capiba(be)ribe e a casa de seu avô. 

Além disso, esses poemas funcionam como lembretes da morte: a partir de suas leituras aprendemos a finitude da vida. Bandeira lembra de um Recife que já não existe – aquele de sua infância em que os acontecimentos da vida eram todos lúdicos. Assim, o poeta, com saudade, pincela imagens, nomes e paisagens que hoje só existem em sua memória, pois o tempo tudo findou. Emmanuel, para passar a mesma mensagem, prefere mostrar o vazio, a decadência e a monocromia de locais antes coloridos e movimentados.

A distância as vozes macias das meninas politonavam:
Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão
(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão…)
[…]
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame do dr. Fulano de Tal)
[…]
A casa de meu avô…
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade.
(Evocação do Recife)

[…]
Ninguém na varanda sentado[…]
lá dentro desandam as trevas,
não resta sequer uma lâmpada.
[…]
o sofá, a velha TV, […]
coisas que assemelham aranhas
urdindo silêncios, alheias.
[…]
o grande quintal moribundo
não gera seus frutos antigos;
agora só crescem os fungos.
[…]
Voltemos daqui do passeio
por este pomar decaído,
pois tudo que é findo reclama
direito de ser esquecido. […]
(A Casa do Carmo de Minas)

É óbvio que apesar da semelhança nos temas e nos efeitos, há uma clara diferença no tom desses poemas, devido à voz pessimista e maldita que permeia A Ave Lúcifer e a melancólica agridoce, em Libertinagem. Creio que isso não seja suficiente para desvalidar as aproximações aqui apontadas. 

Decerto, a grandeza d’A casa de Carmo de Minas não se limita à contígua semelhança com o poema de Manuel Bandeira. Tecnicamente, Emmanuel apresenta um arsenal de ferramentas e imagens. A começar pela escolha de narrar um passeio por todos os cantos da casa, seguindo a lógica geográfica do espaço: na introdução, o poeta fala da casa como um todo, depois da varanda e, por último, das suas janelas e portas, por onde a imaginação do narrador e do leitor entrarão para conhecer o “reino das sombras”. É como se o narrador pegasse em nossas mãos e nos levasse para passear. Penso que é uma escolha de abordagem inteligente: o alinhamento de ânimos é facilitado, pois, assim, o leitor se aproxima do que é narrado por meio de sugestões diretas, o que explica o uso de verbos no imperativo da primeira pessoa do plural (que inclui tanto o narrador quanto o leitor), seguido de verbos conjugados no presente. Na prática, isso significa que os versos nos guiam, mostram os objetos e cômodos e os explicam:

Mas imaginemos, num átimo,
cruzarmos a porta assim mesmo,
entrando no reino das sombras […]
Os olhos reagem e, aos poucos,
restituem corpo às imagens […]
Em busca de abrigo, a visão
pousa sobre móveis antigos,
mas tudo é perigo e presságio…
[…]

Assim, colocando-nos como ponto de vista dos objetos descritos no texto, as transformações metafóricas do poema se justificam no âmago de cada leitor. Ora, se nos sentimos parte da narrativa e, a partir de sugestões diretas, estamos imaginando cômodos de uma casa abandonada, é evidente que a nossa tendência é misturar as imagens sugeridas com outras que guardamos em nosso imaginário – sendo possível imaginar a nossa própria casa naquelas condições no futuro, ou mesmo a casa dos nossos avós atualmente. O processo chega a ser explicado no próprio poema:

Lentas, as lembranças se arrastam
cheias de torpor, sem substância;
algumas avançam mais pálidas,
do tempo em que foste criança.

Muitas as insônias, os sonhos
que vêm, displicentes, à tona […]

A aproximação do narrador em direção ao leitor é tão consciente e sutil que quase não percebemos que, por vezes, o narrador se exclui e passa a falar diretamente com o seu leitor, a partir do tempo verbal conjugado na segunda pessoa: “do tempo em que foste criança”. 

As metáforas d’A Casa do Carmo de Minas são simples, concisas e carregadas de função e significado. Ao aproximar o piso de madeira ao caixão, o poeta também evoca o cheiro e a umidade do local, enriquecendo a imagem com o convite aos outros sentidos: 

Sintamos, então, os odores
a se desprenderam do chão:
a putrefação do que é úmido,
madeira sabendo a caixão.

‘No reino das sombras’ daquela casa abandonada, as trevas têm textura líquida, pois ali mergulhamos os olhos, mas, como explica o poeta a partir de uma metáfora em aposição, o escuro é ácido sulfúrico:

Vagando entre vultos solúveis,
os olhos mergulham no escuro
– ácido sulfúrico: denso,
corrói os contornos de tudo.

Há outros elementos que merecem destaque em seus versos. Seria pretensioso dizer que eu conseguiria elencá-los aqui, pois ainda não esgotei a leitura deste poema. No entanto, talvez isso seja um sinal de que A casa do Carmo de Minas é uma das grandes obras dessa geração de poetas. Estou convicto de que é um dos melhores poemas memento mori já feitos. 

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