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Entre a tradição e a diluição: um comentário ao Jornal RelevO

O poeta Nuno Rau, em sua coluna de ombudsman para o Jornal RelevO, trouxe um tópico importante para nós na edição de julho do periódico: “Não sei se vocês também sentem que quase tudo que vem na esteira do que se convencionou chamar de pós-modernismo soa como uma espécie de vale-tudo, de diluição, repetição insossa”. Em seguida, o autor diz que na literatura “esse fenômeno tem muitas faces, e quase todas passam por um completo desconhecimento da História e da tradição”.

Sabemos que, politicamente, a palavra tradição carrega uma série de significados. Pode ser que você enxergue esse conceito com bons olhos, mas pode ser que essas oito letrinhas te causem uma imediata repulsa. Qualquer que seja o caso, no entanto, precisamos abordar o assunto do ponto de vista da poética. Por isso, neste breve artigo comentarei algumas falas do colunista que são importantes para o posicionamento da Logopeia. Afinal, qual é a importância da tradição? 

Alguns dias atrás, compartilhamos em nossa página no Instagram uma frase do Marcus Accioly, que trata do tema: “Conservar a tradição como tradição é parar a história ou inverter o tempo; escrever sem uma raiz clássica é o mesmo que plantar uma árvore no ar”. Esse é o papel da tradição: mostrar o que veio antes de nós para que saibamos o que fazer daqui pra frente. 

Sobre o assunto, uma das falas de Nuno Rau nos chamou especial atenção: “talvez tenhamos nos perdido num labirinto de problematizações de tal modo capilarizado que não possibilita a reunião de tudo numa grande frente de real renovação dos modos de vida”.

Quando olhamos para a produção contemporânea e as discussões acerca do verso, vemos que muitos ditos poetas não possuem definições claras do que é poesia, do que é um poema e do que é Beleza. Tudo se perde em um mar de abstrações: “poesia é tudo aquilo que toca a alma” ou “beleza é tudo aquilo que faz seu coração bater mais forte”. Isso não serve ao poeta, assim como uma definição lírica do que é eletricidade não serve de nada ao engenheiro.

Sobre a diluição da poesia e a aparente falta de técnicas, o poeta diz: “todo o desenvolvimento de técnicas, das quais o enjambement é apenas um exemplo, parece desconhecido, ou é desconhecido mesmo, e aí toda a aventura de escrita das gerações anteriores fica relegada ao desprezo, a uma zona de sombra, tendo como resultado que cada vez temos menos ferramentas de leitura e interpretação do que é escrito”.

O comentário foi certeiro: a diluição da poesia, tendo sido problematizada sua definição, faz com que haja um desconhecimento sobre as técnicas e os materiais mais básicos da arte do verso. Ou, de acordo com as definições de Ariano Suassuna em sua Iniciação à Estética, há um desconhecimento não apenas da técnica, mas também do ofício, que é a parte material de cada arte, sobre a qual não há nenhuma liberdade.

Para estudar, precisamos antes de mais nada definir o objeto de estudo. Se você deseja se aprimorar em técnicas de panificação, você primeiro precisa saber o que é um pão e o que não é. É por isso que para nós é tão importante ter uma definição de poesia, mesmo que haja teóricos e poetas que discordarão de nós: precisamos definir o assunto da nossa conversa. Um poeta precisa de uma definição do que é e do que não é poesia para ele — e a definição frouxa da pós-modernidade faz com que ele saia do nada e vá para lugar nenhum, uma vez que “poesia é tudo que eu digo ser poesia”.

É interessante que o colunista toca na outra face do problema: “Existe, no entanto, um outro polo na produção de hoje, que é a de poetas que conhecem muito sobre versificação […] mas cuja produção parece não ter se descolado do século 19”. 

O autor contrasta tais poetas, que aqui na Logopeia chamamos carinhosamente de “nerds de poesia”, ao Drummond de Claro Enigma, a fim de mostrar na prática que é possível haver domínio das técnicas sem que os versos fiquem presos ao tecnicismo vazio. 

Ser artista vai muito além de inserir frases em estruturas definidas pela tradição, chegando a ser desesperador ler um soneto inteiro que não tem nenhuma motivação artística para existir. Aristóteles, na Poética, hierarquizou os componentes da arte: os meios (ofício e técnica), a moral e o pensamento. A poesia, nessa concepção, jamais deve descambar para a retórica ou para o moralismo, mas é necessário que esses componentes existam. 

Utilizando o jargão popular: não se faz arte apenas com “forma”, sem “conteúdo”. Não basta ser nerd: o versejador precisa ser artista para ser poeta.

São essas as teclas em que mais batemos: a poesia se apoia na tradição, sendo definida, analisada e criticada de forma objetiva; mas, por outro lado, não podemos permitir que a arte do verso seja reduzida a um ofício fetichista ou matemático. Pegando de novo emprestadas as palavras de Marcus Accioly:

“A tradição tem pernas, assim como a imaginação tem asas.”

É permitido aos versos que voem, mas sem as pernas não há pouso. E, na Logopeia, convidamos leitores e poetas a estudar com os pés firmes no chão sobre o que ocorre no céu.

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