Críticas

Crítica: Home Body, de Rupi Kaur

Os méritos editoriais e comerciais da Rupi Kaur são inegáveis. A escritora é um fenômeno mundial que, além das vendas milionárias e o sucesso estrondoso nas redes sociais, trouxe discípulos, tais como a autora Ryane Leão, aqui no Brasil, que utiliza alguns de seus recursos. Para gerar tantas vendas, é necessário que haja um grande carinho por parte do público, sejam fãs da autora ou novos leitores. E, em seu caso, isso se deve aos temas abordados e à simplicidade com que são tratados.

Ou seja, conteúdo + forma.

Existe uma velha dicotomia entre esses dois elementos que, na verdade, é falsa. Nenhuma forma existe independentemente do conteúdo. Em uma escultura, quando você tira a forma, não resta conteúdo algum. E é isto que Aristóteles explicita, na Poética, ao colocar os “meios” (ou seja, a forma) como anteriores ao caráter moral, que é secundário. “Em terceiro lugar”, diz o filósofo, “vem o pensamento, isto é, a capacidade de dizer o que é pertinente e apropriado, o que nos discursos formais é função da política e da retórica”.

Note que há uma hierarquia, em que a forma vem antes, a moral vem depois e em terceiro o pensamento. Nenhuma obra existe sem esses elementos, mas há uma predominância deste sobre aquele para que uma obra de arte seja considerada assim.

Aqui na Logopeia, apesar da plena ciência de que um não existe independentemente do outro, damos maior ênfase aos aspectos formais de um poema e como estes podem melhorar ou deteriorar uma matéria. Seguimos a hierarquia proposta por Aristóteles na “Poética”: forma, moral e pensamento.

Outra consideração a ser feita antes de entrarmos de fato no assunto do artigo é que a definição de poesia que utilizamos é aquela sintetizada por Ariano Suassuna, ao dizer que a poesia é essa linguagem em que o uso de imagens e melodias predomina sobre a clareza e a objetividade. Portanto, são palavras usadas para além de seu significado habitual, num todo que compreende diversos aspectos, enunciados por Ezra Pound em sua obra “ABC da Literatura”.

Portanto, feitas essas considerações iniciais, vamos ao corpo da crítica.

A forma da Rupi Kaur

Rupi Kaur escreve com letras minúsculas, usando como pontuação única o ponto final. Por que ela escreve assim? A autora diz que decidiu escrever dessa forma para honrar a sua cultura. Segundo ela, na escrita gurmukhi só há um tipo de letra, sem maiúsculas e minúsculas. Ela diz também apreciar a igualdade das letras e que seu estilo reflete sua visão de mundo. Ou seja, perceba que a própria autora concorda que a forma faz parte do conteúdo. 

Mas o que percebemos na forma literária da escritora indo-canadense, para além de suas origens? Leia um de seus escritos, que compõe seu último livro, publicado em 2020:

“não é só nas relações românticas 
que o abuso acontece
o abuso também pode morar
na amizade”

Veja que, neste trecho, não há nada do registro poético que, segundo Ariano Suassuna, predomina na poesia. Há aí um caráter didático, com uma mensagem que é importante do ponto de vista psicológico e relacional, mas não é poética. Portanto, é verdade que abuso também pode acontecer em amizades, pois a Psicologia estuda casos assim, mas, de acordo com os parâmetros formais, é mentira que isso seja poesia.

Perceba que o pensamento, colocado por Aristóteles em terceiro lugar, aqui aparece em primeiro:

“eu quero viver
eu só tenho medo de
não corresponder às expectativas 
que as pessoas têm a meu respeito 
eu tenho medo de envelhecer
pavor de nunca mais escrever
algo que valha a pena
de decepcionar as pessoas
que esperam o melhor de mim
de nunca aprender a ser feliz
de um dia voltar a ficar sem dinheiro 
de os meus pais morrerem
e eu ficar sozinha no fim”

O grande problema de criticar obras de cunho tão confessional é passar a ideia de que estamos invalidando os sentimentos expostos. E eu quero deixar claro que não se trata disso; afinal, compartilho de muitos dos sentimentos que a autora expõe, tendo, inclusive, escrito textos de cunho similar. No entanto, tenho hoje a maturidade de reconhecer que, de acordo com os critérios estabelecidos pela tradição poética que nos trouxe até aqui — composta por homens e mulheres ao redor do mundo, ao longo da história da humanidade —, isto acima posto não é poesia. Mas e quantos aos outros escritos que compõem o volume?

Para elaborar e dirimir dúvidas, preciso fazer ainda algumas considerações.

Não ser poesia não é um demérito — a não ser quando você tenta e falha 

Ser ou não poesia não é um mérito ou um demérito. Tratam-se de objetos diferentes, assim como uma panela e uma maçaneta são coisas distintas. 

Um poema não se define pela mera quebra em versos, mas pelo registro poético, com o uso de imagens, melodias e fluxos intelectivos, construindo e resolvendo tensões. Na Poética, Aristóteles faz essa diferenciação, ao dizer que Sófocles e Empédocles, apesar de compartilharem o verso metrificado e a admiração nutrida pelo professor, não são ambos poetas; o segundo, de acordo com este, é um naturalista. E, desde então, as concepções do que é poesia e do que não é passaram por alterações, mas ficamos com essa lição: um texto em verso não é necessariamente um poema. É necessário que haja poesia.

Em alguns momentos, no entanto, a voz poética de Rupi Kaur aparece:

“meu corpo é o mapa de minha vida
meu corpo veste tudo o que viveu
meu corpo aciona o alarme
quando sente o perigo chegar
e de súbito
os demoniozinhos do passado
saem do meu corpo num salto
e gritam
não se esqueça da gente
nunca mais pense em tentar
deixar a gente pra trás

No entanto, conforme acima exposto, até nos momentos em que a voz poética surge, é de forma incipiente e utilizando imagens não muito marcantes. Antropomorfizar pensamentos ou traumas, dando voz a estes, não é algo recente na literatura — data dos tempos bíblicos. Portanto, ao ser usado, recomenda-se que o faça de uma forma inventiva, não como um recurso solto.

“ter ansiedade é como estar pendurada
no topo de um prédio
e saber que minha mão está prestes
a escorregar”

Aqui o registro poético enfim é utilizado; afinal, o símile é, por excelência, um dos recursos característicos da poesia. Há nesse trecho um sentimento que deseja ser exposto pelo eu lírico, que o faz por meio de imagens (o conceito de fanopeia, de Ezra Pound).

Ainda assim, a imagem não chega a ser desenvolvida. E até aí a autora (ou talvez a editora responsável) demonstra querer deixar seu texto o mais explícito possível: em vez de permitir que a imagem de uma pessoa pendurada no topo de um prédio ecoe em nossa mente, de forma que entendamos (e sintamos) o que a autora propõe, temos na página ao lado a representação gráfica do poema. É como se o texto precisasse desse auxílio, sendo comparável ao clipe musical que se limita a reproduzir com uma fidelidade desnecessária tudo que a letra da música descreve. 

Se os versos já descrevem a imagem, para que serve a ilustração? Apenas para banalizar o poema, tornando-o explícito e impedindo que o leitor faça sozinho o próprio trabalho.

Poemas precisam de imagens, porque SÃO imagens

Quando falo em imagens na poesia, não posso fugir da poesia clássica chinesa. Este a seguir é de Yu Xuanji, nascida no ano de 844, durante a Dinastia Tang. Veja como, no poema a seguir, as cinco simples linhas transpõem uma imagem e um sentimento, sem nenhum recurso adicional além das palavras. Leia com paciência:

“A lagoa inútil
se esconde no meio do pântano.
Buscando nova forragem,
cavalos pisaram juncos
e nem a raiz ficou.”

Perceba que as imagens induzem sentimentos: a lagoa escondida em meio ao pântano, os cavalos buscando forragem e reduzindo os juncos a nada. 

Rupi Kaur disse, em entrevista, que os ocidentais não conseguem entender plenamente seus escritos. A verdade é que nenhum poema é entendido por completo. Este poema chinês também foi muito melhor compreendido em sua época; o tradutor, em nota ao poema, diz que a lagoa representava a busca de uma mulher por marido; os cavalos são um símbolo masculino — buscando “nova forragem”, assassinam os juncos. 

No entanto, mesmo sem compreendê-lo em sua totalidade, este é um poema que pode ser contemplado pelo leitor. A poesia chinesa mostrava preocupação com ritmo (havia, inclusive, formas fixas muito populares e tradicionais) e era principalmente imagética. A qualidade dos poemas foi preservada, mesmo que não consigamos entender tudo que foi dito.

Quando saímos do domínio da forma e entramos no campo do pensamento, ainda nas definições de Aristóteles, vemos correspondência de Rupi Kaur com Yu Xuanji, a despeito de suas culturas. Note esse outro poema, em que a autora da Dinastia Tang faz uma espécie de reivindicação de um direito feminino:

Visitando o pavilhão sul do Templo Chongzhen – onde são divulgados os resultados dos exames para o serviço público

Nuvens nos picos, a primavera no olhar
Prata entre os dedos, a clara caligrafia
Pena: os robes em seda me cobrem a poesia
Elevo a fronte: seus nomes, resta-me honrar.

Um quadro é pintado pelas palavras. Nuances são reveladas ao longo do poema. A autora não faz um discurso, que poderia ser válido na retórica, mas não na poesia. Yu Xuanji transmite seu pensamento por meio de imagens e ritmos, que o tradutor preservou ao adotar o esquema de rimas ABBA e os versos dodecassílabos.

Apenas para citar mais um poema curto, mas densamente imagético, perceba esses dois versos do Ezra Pound:

“The apparition of these faces in the crowd:
Petals on a wet, black bough.”

Note que há apenas duas linhas, sem nenhum verbo: apenas imagens que, ao ser visualizadas, evocam um sentimento. Vemos pouco disso na obra da Rupi Kaur. Na verdade, em seus best-sellers percebo algo muito característico:

A Rupi Kaur parece muito querer te ensinar 

Na obra da autora indo-canadense, em vez de uma preocupação com a poesia, percebemos uma urgência pela didática. Neste livro, ela extrapola esse recurso:

“uma lista de coisas que vão te acalmar os ânimos:
1) chore. ande. escreva. grite. dance até
botar esse sentimento pra fora.
2) se depois de tudo isso
você ainda sentir
que está perdendo o controle
pare pra pensar se vale a pena chegar ao fundo do poço
3) a resposta é não
4) a resposta é respire
5) tome um chá e espere até se acalmar
6) você é a heroína de sua vida
7) esse sentimento não tem poder sobre você
8) o universo te preparou para lidar com isso
9) mesmo que a escuridão se alastre
a luz sempre chega
10) você é a luz
11) levante-se e volte para o lugar onde mora o amor”

Nesses momentos a escritora, para quem tinha alguma dúvida, explicita seu objetivo didático, criando um tutorial. Não chega a ser um recurso sutil, em que a forma do passo a passo é subvertida pela poesia; este é, de fato, um tutorial, semelhante aos que são encontrados em páginas de apoio emocional (essas, sim, com objetivos educativos, sem fingir ser poesia pela quebra de versos).

A obra, portanto, tem predominância da prosa; especificamente, a epistolografia, de caráter aforismático e didático. Nos momentos em que o registro poético surge, há imagens batidas, como o contraste entre luz e escuridão. Tudo isso porque, neste livro, predomina a urgência de passar uma mensagem positiva e autoafirmativa — válida, mas não poética. 

Conclusão: o que Rupi Kaur faz, no geral, não é poesia

Por mais importantes que sejam as mensagens transmitidas (lecionadas) pela autora, não vejo sentido em vender esse livro como poesia. Existem páginas de Psicologia no Instagram tratando de temas tão sensíveis de forma mais responsável, com um cunho educativo e o objetivo de apoiar as vítimas de abusos e problemas emocionais decorrentes. Não é esse o papel da arte.

Se você é uma pessoa que se identifica e/ou compreende de alguma forma o que a Rupi Kaur diz, você é uma pessoa humana. Não tiraram isso de você. No entanto, isso não faz com que sua produção se configure como poética. Assim como você consideraria estapafúrdio dizer que o livro Home Body é uma música, uma panela de barro ou uma ginástica rítmica, afirmo que o que está exposto ao longo dessas mais de 200 páginas, em suma, não é poesia.

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