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Melopeia, fanopeia e logopeia: o que faz um poema ser um poema?

Antes mesmo de conseguirmos imaginar aquilo que um poema diz ou mesmo entendê-lo, temos a impressão de senti-lo. O que desencadeia essa impressão? E o que faz com que consigamos enxergar e entender o que ele diz?

Segundo Ezra Pound, em “ABC da Literatura“, isso se deve aos três elementos que um poema carrega em sua composição: melopeia, fanopeia e logopeia. 

Neste artigo, explicarei a razão de cada um desses aspectos no poema. Usarei como exemplo o poema “O Adormecido no Vale”, de Arthur Rimbaud, para que você perceba o funcionamento desses conceitos em um bom poema.

É importante ressaltar que Ezra Pound, em sua obra, criou esses três conceitos, contudo não utilizou uma abordagem metodológica, de forma que quando introduzidos mais parecem aforismos. Por isso, na Logopeia, tomamos algumas liberdades que pretendemos aprimorar, metodologicamente, à medida o ensejo nos permitir, da mesma forma que faremos com termos técnicos aqui citados, que terão suas respectivas definições em um glossário. Isso não substituirá as fontes primárias, as quais iremos referenciar e tornar acessíveis. Boa leitura!

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O que é Melopeia?

Melopeia é a propriedade rítmica, musical e sonora do poema. A melopeia possui diversos efeitos: além da sonoridade agradável aos ouvidos, o poema pode comunicar seu sentido através dos fonemas. 

Por exemplo, João Cabral de Melo Neto, que recorria à pedra enquanto metáfora, utilizava métricas quebradas para causar dificuldade.

Ou seja, a melopeia pode se apresentar por meio de rimas, cadências, pontuações, técnicas de versificação, escolhas de palavras e fonemas, enjambements, entre outros recursos.

Quer entender na prática? Leia o poema “O Adormecido no Vale” em voz alta. Ao ler um poema, não se deve fazer uma pausa a cada verso: leia respeitando a pontuação e sinta o ritmo que o poeta impôs.

O Adormecido no Vale

(Tradução de Ferreira Gullar)

É um vão de verdura onde um riacho canta
A espalhar pelas ervas farrapos de prata
Como se delirasse, e o sol da montanha
Num espumar de raios seu clarão desata.

Jovem soldado, boca aberta, a testa nua,
Banhando a nuca em frescas águas azuis,
Dorme estendido e ali sobre a relva flutua,
Frágil, no leito verde onde chove luz.

Com os pés entre os lírios, sorri mansamente
Como sorri no sono um menino doente.
Embala-o, natureza, aquece-o, ele tem frio.

E já não sente o odor das flores, o macio
Da relva. Adormecido, a mão sobre o peito,
Tem dois furos vermelhos do lado direito.

Recomendamos duas traduções, para aqueles que não leem francês: a tradução de Ferreira Gullar, acima, seguida da versão de Ivo Barroso. A primeira nos conduz de forma mais sublime à imagem e tem ritmo mais fluido; a segunda, em termos de métrica, tenta preservar recursos da versão original, mas a recomendamos somente para estudo de caso.

Onde está a melopeia? A forma que Rimbaud usa para nos apresentar a imagem rítmica é o soneto petrarquiano, forma fixa de 14 versos divididos em dois quartetos (estrofes de quatro versos) e dois tercetos (estrofes de três versos), sendo seu último verso de ouro (a porrada final em forma de imagem). Em “Le Dormeur du Val” a construção das estrofes é feita por versos alexandrinos (versos de 12 sílabas poéticas, com acentuação na sexta sílaba).

Rimbaud nos apresenta a um cenário onírico, usando de assonância no primeiro verso: “C’est un trou de verdure chante une rivière”. Em português, Gullar utiliza aliterações em “v” para provocar o mesmo efeito: “É um vão de verdura onde um riacho canta…”. Leia essa frase em voz alta mais uma vez e sinta o que ela diz. 

Mais tarde, na penúltima estrofe, as aliterações em “s” criam um ambiente calmo, nos induzindo de forma subjetiva à imagem sonora do sono: “com os pés entre os lírios, sorri mansamente / como sorri no sono um menino doente”. Essa calma, reforçada pela paz que o ritmo aplica, nos conduz lentamente.

O poema desacelera com um enjambement, e esse ritmo arrastado, essa cadência áspera, nos apresenta, fria e sutilmente, ao desfecho que, de tão condensado, se torna um soco no estômago. Veja que, na poesia, o ritmo conduz o olhar, o poeta escolhe por meio tempo o que mostrar e quando mostrar.

O que é Fanopeia?

Fanopeia, por definição de Pound, é “a projeção de imagens sobre a retina da imaginação”. Em bom português, estamos falando de imagens.

Podemos dizer que um poema é bom quando ele consegue fazer o leitor imaginar objetos, cenários, pessoas, movimentos. É necessário que haja imagens palpáveis. Por exemplo, se eu te falo de esperança, você não imagina nada concreto; mas, se te falo a palavra “árvore”, não há dúvidas.

Aqui, são usados recursos como coloratura, símiles e metáforas. Essas são ferramentas que possibilitam a criação de imagens, figuras de linguagem que passam a dar forma, vivacidade e atribuem força à linguagem poética.

Em suma, todo poeta é um pintor que concebe, com palavras, um quadro vivo, telas em movimento através dos versos. E, como observamos anteriormente, no poema quem guia os olhos do leitor é o poeta.

Leia mais uma vez “O Adormecido no Vale” e preste atenção às imagens representadas no poema.

O Adormecido no Vale
(Tradução de Ferreira Gullar)

É um vão de verdura onde um riacho canta
A espalhar pelas ervas farrapos de prata
Como se delirasse, e o sol da montanha
Num espumar de raios seu clarão desata.

Jovem soldado, boca aberta, a testa nua,
Banhando a nuca em frescas águas azuis,
Dorme estendido e ali sobre a relva flutua,
Frágil, no leito verde onde chove luz.

Com os pés entre os lírios, sorri mansamente
Como sorri no sono um menino doente.
Embala-o, natureza, aquece-o, ele tem frio.

E já não sente o odor das flores, o macio
Da relva. Adormecido, a mão sobre o peito,
Tem dois furos vermelhos do lado direito.

A atmosfera onírica se intensifica quando nosso olhar é apresentado à imagem de um riacho. Por entre raios de sol que penetram a água, dando movimento à cena, e farrapos de prata, que intensificam o tom impressionista da paisagem, a imagem se desloca com calma, nos embala em paz, junto ao jovem retratado, feito num sonho. 

O círculo cromático utilizado no poema (verde, prateado, azul, branco e vermelho) remete a vivacidade. Sabemos que esses tons poderiam compor um quadro impressionista. Aquele jovem soldado descansa cercado de uma natureza viva; ela o abraça, pacífica, e ele dorme com a tranquilidade de uma criança recém-nascida. 

Na última estrofe, sentimos a mudança de tom. Ele, adormecido, na verdade está morto. Rimbaud nos presenteia com o preço da guerra. 

Note que toda a atmosfera do poema, a vida reforçada do início ao fim, esse contraste puro com o seu desfecho trágico, não seria intenso de tal forma se nos fosse apresentado de outra maneira. Nossos olhos são conduzidos não por explicitude, mas pela sutileza. Os elementos são apresentados aos poucos, evitando o excesso de estímulos visuais.

As imagens apresentadas são reforçadas ao longo do poema. Do começo ao fim, é possível visualizar absolutamente todos os elementos ali expostos, sem abstrações. Isso é Fanopeia.

O que é Logopeia?

Logopeia é “todo fluxo intelectivo que passa o campo da imagem sonora e da imagem auditiva”. A definição de Brian Belancieri reflete a ideia de Pound a respeito de Logopeia: algo amplo e abrangente, que na tradução de Augusto de Campos pela editora Cultrix se limita a uma definição vaga, citando-a tal qual “a dança do intelecto entre as palavras”, seguido do raciocínio de Laforgue, “que trabalha o domínio específico das manifestações verbais e não se pode conter em música ou plástica”.

A Logopeia é a unidade da imagem sonora e da cadência rítmica dentro do poema; tal unidade é forte o suficiente para induzir um estado de alma. Um fio condutor intelectivo que une imagem sonora e imagem rítmica em pulsação psicológica.

Peço que, para entender, leia mais uma vez o poema. De que forma você falaria sobre a guerra? Alguns talvez seriam sentimentais: “É difícil viver uma guerra! Nosso povo é oprimido!”. Entretanto, não é assim que o poeta decide fazer.

Para denunciar a Guerra Franco-Prussiana, Rimbaud escolhe mostrar os horrores praticados em batalha numa composição de força imagética e sonora, que comove pela unidade. A Logopeia é esse estado de desolação da alma ao perceber que aquela paisagem, a paz, o onírico, na verdade era o retrato de uma criança: sua boca está aberta, suas mãos estão suspensas e já não respira, apenas dorme.

Esse estado psicológico induzido somente pode ser concebido pelas mãos da sutileza. As imagens sonoras e rítmicas ambientam, quadro a quadro, selecionando aquilo que vemos, um registro poético denso de força. Ela se preanuncia:

Com os pés entre os lírios, sorri mansamente
Como sorri no sono um menino doente.
Embala-o, natureza, aquece-o, ele tem frio.

E decai sob o leitor, feito uma onda no mar que encontra uma rocha ao pé do farol:

E já não sente o odor das flores, o macio
Da relva. Adormecido, a mão sobre o peito,
Tem dois furos vermelhos do lado direito.

Sentiu? Agora você sabe o que é logopeia. 

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