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Os cantadores e a literatura de cordel

O QUE É A LITERATURA DE CORDEL?

A literatura de cordel é um gênero literário popular escrito em versos marcados pela oralidade, por suas rimas e pela linguagem coloquial. Geralmente, são textos narrativos que apresentam métrica e ritmos bem definidos. Seus textos são vendidos em folhetos, que são expostos ao público pendurados em cordas nas feiras e mercados nordestinos.

A forma e o tom do cordel são variáveis e podem ser tanto humorísticos quanto sombrios, escritos em seis versos (sextilhas), em oito ou em quatro. Mais adiante trataremos dessa variedade do gênero.

COMO SURGIU A LITERATURA DE CORDEL?

A literatura de cordel como conhecemos hoje surgiu entre o fim do século XIX e o começo do XX, quando começou-se a transcrever os versos improvisados das cantorias. O objetivo era amplificar o alcance daquela arte nordestina, difundindo as palavras dos cantadores por meio de folhetos impressos em papel barato. 

A prática resultou em grande sucesso no Ceará, na Paraíba, no Pernambuco e no Rio Grande do Norte, de onde a maioria dos repentistas surgiu. No Recife, parte dos repentes eram tipografados e colocados à venda no Mercado Público de São José, enquanto os repentistas faziam suas performances no local. O poeta João Cabral de Melo Neto, no poema Descoberta da Literatura, registrou a fama dos folhetos e o uso das vendas nas feiras: 

No dia-a-dia do engenho,

toda a semana, durante, 

cochichavam-me em segredo: 

saiu um novo romance. 

E da feira de domingo 

me traziam conspirantes 

para que os lesse e explicasse 

um romance de barbante.

Ao longo do tempo, a literatura de cordel deixou de estar subordinada ao repente, não se limitando à mera cópia de seus versos. Pode-se dizer que ela ganhou autonomia e adquiriu atributos que não seriam possíveis de se adquirir, caso ainda se portasse como apenas um meio de difusão das cantorias. Os versos dos folhetos, embora mantivessem os indícios de oralidade, ficaram mais complexos por conta das variações possibilitadas pela linguagem escrita: a inversão da sintaxe, bem como as inovações estróficas e métricas. 

Essa mudança repercute nas cantorias e  representa uma transição de paradigma: a literatura de cordel e o repente passam da oralidade mista para a secundária. A oralidade mista, conforme aponta o medievalista Paul Zumthor, ocorre num contexto de coexistência da fala e da escrita, porém, esta influencia apenas indiretamente a linguagem falada (é o caso dos repentistas que eram analfabetos). Por sua vez, a oralidade secundária ocorre num contexto em que a sintaxe e as demais características da fala são moldadas pela cultura escrita, que é o caso dos repentistas modernos e contemporâneos.

A FORMA

As cantorias são batalhas entre dois repentistas, que se alternam no canto das estrofes improvisadas. No entanto, apesar do improviso, os versos apresentam métrica e rimas perfeitas, além do ritmo, que é sempre bem marcado e acompanhado pelo violão, pandeiro ou rabeca. 

Como já explicado, os cordéis tomam o repente como base, o que implica na manutenção de várias dessas características citadas. E sendo uma arte escrita, não há de considerá-la como improvisada, apesar dos cordelistas manterem a aparência de algo que foi feito de forma espontânea e natural, principalmente com o emprego de palavras utilizadas por sua comunidade e dos temas cotidianos. 

A métrica e as estrofes nos cordéis costumam variar de acordo com a forma poética ou com o gênero utilizado. No entanto, é mais comum encontrar a redondilha maior, que consiste no verso de sete sílabas poéticas. Pois, como explica o professor Segismundo Spina, sendo o redondilho um metro próximo à nossa fala, equivalente a uma frase normal da expiração pulmonar, é natural que seja o mais utilizado. O decassílabo também é muito comum, principalmente, na sua forma de martelo agalopado, com acentos rítmicos na 3ª, na 6ª e na 10ª sílaba. Existe ainda o martelo à beira-mar, que é uma variação de nove sílabas. 

O esquema de estrofe mais utilizado é a sextilha – estrofe de seis versos – principalmente quando associada à redondilha maior. Alguns estudiosos entendem que essa predominância decorre diretamente das cantorias, pois, nelas, cada par de versos constitui uma única frase rítmica ou melódica com uma cesura bem marcada na sétima sílaba, dividindo a frase em dois versos. Por esse motivo, nas sextilhas, os cordelistas costumam rimar apenas nos versos pares, equivalentes ao final de cada frase melódica. 

Além da sextilha, as quadras (de quatro versos), os quadrões (de oito versos) e as décimas são muito utilizadas, sendo esta última a predominante entre os primeiros cordelistas. 

Merece destaque ainda a forma mitológica do galope à beira-mar: quando José Pretinho perdeu um duelo em martelo agalopado, retirou-se à beira-mar, ocasião em que, ouvindo o barulho das ondas, criou a forma poética semelhante a um galope. O galope à beira-mar é composto por uma décima – estrofe de dez versos, que, no caso, são compostos por onze sílabas poéticas. É tradição que o último verso da décima sempre rime com “mar”. Além disso, o ritmo deve ser anapéstico, ou seja, as marcações rítmicas devem surgir após duas sílabas fracas. Assim, o verso do galope à beira-mar guarda a acentuação na 2ª, na 5ª, na 8ª e na 11ª sílaba, como se vê no exemplo a seguir: 

que busca salvar-se da morte e inventa

cantigas de adeuses na beira do mar. 

(Luciano Maia)

A HERANÇA MEDIEVAL DA LITERATURA DE CORDEL

A literatura de cordel e o repente decorrem da herança medieval ibérica presente no Nordeste brasileiro.

A teoria da residualidade, sistematizada por Roberto Pontes, explica que, na cultura e na literatura, nada é original, tudo é residual. O resíduo, conforme explica Raymond Williams, consiste em algo efetivamente formado no passado, mas que ainda está vivo no processo cultural, não só como um elemento do passado, mas como um elemento ativo do presente.

Assim, a estudiosa Camille Feitosa de Araújo aponta que, por diversos motivos, os resíduos da cultura medieval permaneceram vivos, independentemente do tempo ou do espaço, como força formadora e transformadora no processo de formação etnológica da região nordestina. Nesse mesmo sentido, Fernando Uricoechea e Raymundo Faoro (apud VASSALO, 1993, apud SANTOS) consideraram que a configuração social nordestina até 1930 apresentava grande identificação com a medieval portuguesa.

O crítico literário Massaud Moisés, citando o historiador Hilário Júnior, explica que os padrões medievais moldaram o Brasil como povo e cultura. A Idade Média foi a infância e adolescência brasileira, fases de fragilidade, inconstância e hesitações, mas também de crescimento, aprendizagem, experiência, consolidação.

Os motivos são diversos e explicados pela história. À época da descoberta do Brasil, a distância temporal com a Baixa Idade Média, que durou até o século XV, ainda era pouca. Ou seja, muitos costumes medievais estavam presentes no território europeu e foram exportados à colônia. Cabe lembrar que a colonização começou no Nordeste e por muito tempo teve a sua atividade econômica e administrativa concentrada nesta região. Ocorre que a distância física em relação à Portugal, num contexto propício, preservou grande parte dessa herança. Além disso, o desequilíbrio econômico e social da região, o surgimento de manifestações messiânicas e diversos outros fatores contribuíram para a preservação do aspecto medieval na cultura nordestina. 

Como explica a professora Lígia Vassalo n’O Sertão Medieval: Origens européias do teatro de Ariano Suassuna (apud SANTOS), na cultura oral, os desafios dos cantadores nordestinos, bem como seus temas também de origem francesa e árabe, guardam estreita relação com os temas e as técnicas medievalizantes. De forma parecida aconteceu com as payadas sul-americanas e com os corridos mexicanos.

Na cultura escrita, a herança pode ser percebida tanto nos temas quanto na forma. A influência decorre, principalmente, da literatura semi-empenhada e de ficção da Baixa Idade Média – aproveitando-se das classificações de Segismundo Spina. A literatura semi-empenhada caracteriza-se pela moral religiosa e pelo didatismo expressos em produções de intenção satírica com evidentes propósitos artísticos, a exemplo dos autos e do teatro cômico. A literatura de ficção da Baixa Idade Média tinha intuitos estéticos expressos e se livrava dos aspectos religiosos, como exemplo, tem-se a lírica trovadoresca, as baladas e as narrativas novelescas. 

Outra forma de atestar a herança medieval no cordel é a presença de algumas histórias portuguesas no Nordeste, como exemplo, tem-se A Bela Infanta, Juliana e D. Jorge, Silvaninha, e a Donzela. Outras histórias chegaram ao Brasil e ganharam nova roupagem, identificando-se com os caracteres populares do sertão. Em outros casos, os cantadores nordestinos inventavam histórias a partir de grandes nomes europeus, como os conhecidos cantos e cordéis do ardiloso Camonge – derivados dos mitos protagonizados pelo poeta Camões – e também as anedotas de Bocage.

Quanto à forma, muito se assemelham os metros e as estrofes utilizadas. Como explica Spina, o verso de sete sílabas é uma criação galego-portuguesa recorrente sobretudo nos antigos cantares de escárnio, nas canções de amigo e nos versos presentes no fim do movimento trovadoresco. No entanto, os redondilhos também estão presentes nas trovas, na canção popular francesa e também nas balladés de Guillaurme de Machaut.

Até mesmo o galope à beira-mar, explicado na seção anterior, encontra correspondência medieval, pois o verso de onze sílabas com ritmo anapéstico também era de excelência dos cancioneiros galego-portugueses. Assim, principalmente por conta do forte acento na 2ª, na 5ª, na 8ª e na 11ª sílaba, é possível perceber a semelhança na sonoridade dos seguintes versos:

que busca salvar-se da morte e inventa

cantigas de adeuses na beira do mar. 

(Luciano Maia – galope à beira-mar)

Sedia la fremosa seu sirgo torcendo, 

sa voz manselinha fremoso dizendo 

(Estevam Coelho)

POETAS IMPORTANTES E SEUS POEMAS

  1. LEANDRO GOMES DE BARROS

A seca do Ceará (trecho) 

Seca as terras as folhas caem,

Morre o gado sai o povo,

O vento varre a campina,

Rebenta a seca de novo;

Cinco, seis mil emigrantes

Flagelados retirantes

Vagam mendigando o pão,

Acabam-se os animais

Ficando limpo os currais

Onde houve a criação.

Não se vê uma folha verde

Em todo aquele sertão

Não há um ente d’aqueles

Que mostre satisfação

Os touros que nas fazendas

Entravam em lutas tremendas,

Hoje nem vão mais o campo

É um sítio de amarguras

Nem mais nas noites escuras

Lampeja um só pirilampo.

Aqueles bandos de rolas

Que arrulavam saudosas

Gemem hoje coitadinhas

Mal satisfeitas, queixosas,

Aqueles lindos tetéus

Com penas da cor dos céus.

Onde algum hoje estiver,

Está triste mudo e sombrio

Não passeia mais no rio,

Não solta um canto sequer.

Tudo ali surdo aos gemidos

Visa o aspectro da morte

Como a nauta em mar estranho

Sem direção e sem Norte

Procura a vida e não vê,

Apenas ouve gemer

O filho ultimando a vida

Vai com seu pranto o banhar

Vendo esposa soluçar

Uma adeus por despedida.

Foi a fome negra e crua

Nódoa preta da história

Que trouxe-lhe o ultimatum

De uma vida provisória

Foi o decreto terrível

Que a grande pena invisível

Com energia e ciência

Autorizou que a fome

Mandasse riscar meu nome

Do livro da existência.

E a fome obedecendo

A sentença foi cumprida

Descarregando lhe o gládio

Tirou-lhe de um golpe a vida

Não olhou o seu estado

Deixando desemparado

Ao pé de si um filinho,

Dizendo já existisses

Porque da terra saísses

Volta ao mesmo caminho.

Vê-se uma mãe cadavérica

Que já não pode falar,

Estreitando o filho ao peito

Sem o poder consolar

Lança-lhe um olhar materno

Soluça implora ao Eterno

Invoca da Virgem o nome

Ela débil triste e louca

Apenas beija-lhe a boca

E ambos morrem de fome.

  1. PATATIVA DO ASSARÉ

Caboclo roceiro (trecho)

Caboclo Roceiro, das plagas do Norte

Que vive sem sorte, sem terra e sem lar,

A tua desdita é tristonho que canto,

Se escuto o meu pranto me ponho  a chorar

Ninguém te oferece um feliz lenitivo

És rude e cativo, não tens liberdade.

A roça é teu mundo e também tua escola.

Teu braço é a mola que move a cidade

De noite tu vives na tua palhoça

De dia na roça de enxada na mão

Julgando que Deus é um pai vingativo,

Não vês o motivo da tua opressão.

Tu pensas, amigo, que a vida que levas

De dores e trevas debaixo da cruz

E as crises constantes, quais sinas e espadas

São penas mandadas por nosso Jesus

Tu és nesta vida o fiel penitente

Um pobre inocente no banco do réu.

Caboclo não guarda contigo esta crença

A tua sentença não parte do céu.

  1. SILVINO PIRAUÁ DE LIMA

E tudo vem ser nada (trecho)

Tanta riqueza inserida

Por tanta gente orgulhosa,

Se julgando poderosa

No curto espaço da vida;

Oh! que idéia perdida.

Oh! que mente tão errada,

Dessa gente que enlevada

Nessa fingida grandeza

Junta montões de riqueza,

E tudo vem a ser nada.

Vemos um rico pomposo

Afetando gravidade,

Ali só reina bondade,

Nesse mortal orgulhoso,

Quer se fazer caprichoso,

Vive até de venta inchada,

Sua cara empantufada,

Só apresenta denodos

Tem esses inchaços todos

E tudo vem a ser nada.

Trabalha o homem, peleja

Mesmo a ponto de morrer,

É somente para ter,

Que ele tanto moureja,

Às vezes chove e troveja

E ele nessa enredada

À lama, ao sol, ao chuveiro,

Ajuntam tanto dinheiro,

E tudo vem a ser nada.

Temos palácios pomposos

Dos grandes imperadores,

Ministros e senadores,

E mais vultos majestosos;

Temos papas virtuosos

De uma vida regrada,

Temos também a espada

De soberbos generais,

Comandantes, Marechais,

E tudo vem a ser nada.

  1. JOÃO MARTINS DE ATHAYDE

As proezas de João Grilo (trecho)

João Grilo foi um cristão

que nasceu antes do dia

criou-se sem formosura

mas tinha sabedoria

e morreu depois da hora

pelas artes que fazia

E nasceu de sete meses 

chorou no bucho da mãe

quando ela pagou um gato

ele gritou: não me arranhe 

não jogue nesse animal 

que talvez você não ganhe

Na noite que João nasceu 

houve um eclipse na lua 

e detonou um vulcão 

que ainda continua 

naquela noite correu 

um lobisomem na rua 

Porém João grilo criou-se 

pequeno, magro e sambudo

as pernas tortas e finas

a boca grande e beiçudo 

no sítio onde morava 

dava notícia de tudo.

[3] 

Um dia a mãe de João Grilo 

foi buscar água à tardinha

deixou João Grilo em casa

e quando deu fé lá vinha

um padre pedindo água

nessa ocasião não tinha

João disse: só tem garapa 

disse o padre: d’onde é?

João Grilo lhe respondeu:

é de engenho Catolé

disse o padre: pois eu quero 

João levou uma coité 

O padre bebeu e disse:

oh! que garapa boa! 

João Grilo disse: quer mais?

O padre disse: e a patroa

não brigará com você? 

João disse: tem uma canoa 

João trouxe uma coité 

naquele mesmo momento

disse ao padre: bebe mais

não precisa acanhamento 

na garapa tinha um rato

estava podre e fedorento. 

REFERÊNCIAS

ARAÚJO, Camille Feitosa de. Acerca dos resíduos medievais presentes na literatura popular nordestina. In: MEDEIROS, Francisco Roberto Silveira de Pontes; MARTINS, Elisabeth Dias (orgs.). Residualidade ao alcance de todos. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2015. p. 271-285.

CURRAN, M. J.  A Literatura de Cordel: Antes e Agora. Hispania, 1991 doi:10.2307/344184 

MARTINS LAMA,  Dulce, “A  música na cantoria nordestina”, in: Literatura  popular em verso-Estudos, 1971.

OLIVEIRA, Carlos Jorge Dantas de, A Formação da Literatura de Cordel Brasileira, Santiago de Compostela: Universidade de Santiago de Compostela (USC), 2012. 381 fls. Tese de Doutorado (http://hdl.handle.net/10347/5083

SANTOS, Rubenita Alves Moreira dos. Traços medievalizantes em obras literárias nordestinas – uma análise sob a ótica residual. In: MEDEIROS, Francisco Roberto Silveira de Pontes; MARTINS, Elisabeth Dias (orgs.). Residualidade ao alcance de todos. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2015. p. 257-269.

SAUTCHUK, J. M. M. A poética cantada: investigação das habilidades do repentista nordestino, in: Estud. Lit. Bras. Contemp. (35) • Jan-Jun 2010 (https://doi.org/10.1590/2316-40183512

SPINA, Segismundo. Manual de Versificação Românica Medieval. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

SPINA, Segismundo. Na Madrugada das formas poéticas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2002.

ZUMTHOR, P. A Letra e a voz: a “literatura” medieval. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

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