Poemas

3 poemas de Alberto da Costa e Silva

1. Ao lado de Vera (seção I)

Usa o meu coração, se o teu já tens gasto, 
feito a pedra de mó que a faca alisa, cava 
e parece estender como massa de trigo 
sobre a mesa molhada.  Usa o meu coração 

como o trapo que limpa a sujeira das tábuas 
e enegrece de pó, e se pui, e se esgarça,  
se com ele se invertem este dia adverso  
e esta noite perversa. Usa o meu coração    

para nos esconder, como aos olhos as pálpebras,  
do cansaço do tempo, do bolor nos retratos, 
e jogar para os céus, ao abrir das janelas, 
qual um sonho ou um parto, os pardais e os canários. 

2. Soneto a Vermeer

De luto, a minha avó costura à máquina,
e gira um cata-vento em plena sala.
Vejo seu rosto, sombra que a janela
corrompe contra um pátio amarelado

de sol e de mosaicos. Sobre a mesa,
a tesoura, um esquadro, alguns retalhos
e a imóvel solidão. A minha avó,
com os seus olhos azuis, o tempo acalma.

A minha avó é jovem, mansa e apenas
a limpidez de tudo. Sonho vê-la
no seu vestido negro, a gola branca
contra o corpo de cão, negro, da máquina:

a roda, de perfil, parece imóvel
e a vida não se exila na beleza.

3. Rito de iniciação

§  meu pai dizia as mangas que enverdeçam
    para que o sal lhes dê um novo gosto
    cortava o sol em fatias o sumo o rosto
    sujava de luar de mate ou pouca
    luz que fundeia na sombra da jaqueira

    chegava à carne do fruto à rude juba
    que arma em fera a pele do caroço

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