Poemas

3 poemas de Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão foi uma figura muito enigmática. Foi militante de diversos partidos, teve dissidências políticas com vários deles. Foi exilado, morou na China. Fez uma viagem, com intuito intelectual e literário, por todo o mundo, com a Santa Hermandad de la Orquídea. Enfim, é uma pessoa que viveu muitas aventuras. 

Ganhador do Jabuti em 1998, foi reconhecido como poeta de extrema importância por Carlos Drummond de Andrade e por Ezra Pound, que reconheceu: “Em toda minha obra, o que tentei foi escrever a epopeia da América. Creio que não consegui. Quem o conseguiu foi o poeta de O país dos Mourões”.

No entanto, parece que esse legado não se perpetuou no cenário literário, pois o autor é muito pouco falado pelo público geral e até mesmo por acadêmicos, ainda que sua obra seja muito excelente e original. Sua poesia consiste em um movimento dialético que tenciona com extremos aparentes: a terra natal x o mundo, o regional x o universal, o ritmo da poesia x a cadência da prosa. É como se todo o seu conhecimento fosse usado para fazer essa análise dialética com as suas raízes. Por exemplo, na Suíte do Couro, do livro “Algumas Partituras”, ele mistura a mitologia grega e a Bíblia com as imagens do nordeste e de sua família.

Vejamos alguns de seus poemas:

1. Os Anjos

Eram – éramos – seis anjos:
é noite de lua cheia e em noite de lua cheia
não se deve falar de Anael, Mirabel e Agaciel
embora seus nomes possam ser pronunciados
em voz baixa e recto tono
e eu assim os repito – Anael Mirabel Agaciel

Os outros três éramos Miguel, Rafael e Gabriel.
Miguel tinha o relâmpago da espada na cintura
degolava demônios – um dia
viu um mágico engolir no circo a espada nua
sorriu, meteu a sua pela garganta abaixo e a garganta
nunca mais a devolveu

Rafael desvendava os pontos cardeais na bússola dos olhos
— sabia
conduzir tobias e os viajantes em geral por todos os caminhos
— um dia
encontrou o poeta
entrou num labirinto e segue para sempre
as parábolas ób-vias as elipses ín-vias
perdido para sempre ou para sempre fascinado
pela abundância dos caminhos inesgotáveis
errâncias de para lá das rosa-dos-ventos.

Gabriel anunciava às mulheres a chegada dos filhos – um dia
anunciou a uma Virgem a graça de sua criança
e emudeceu para sempre.

2. Pequena ode a uma pétala seca ou A esperada ressurreição da rosa

Entre folhas de versos de Propércio
jaz a pétala seca a flor enxuta;
a rosa úmida e inteira jaz na gruta
do amor e da memória do poeta.

O que era rosa agora é quase espinho
e na pétala seca o que se oculta
é uma rosa de sonhos insepulta
um pássaro do qual só resta o ninho.

Talvez um dia, amor, orvalho e aurora
à mão da musa que a colheu em flor
ressuscitem aroma e forma e cor
e rosa torne a ser o que foi rosa outrora.

Talvez um dia a flauta antiga sopre Orfeu
e à pétala fiel as que se foram, voltem
e da corola nunca mais se soltem
e o rouxinol torne a cantar no ninho seu.

3. O Poço

Todo homem é uma ilha (arquipélago às vezes) sempre pélago:
todo homem é um poço e neste poço
ninguém mergulha: — o caminho
do fundo do poço é um labirinto.

Chega-se a ele — chegar-se-ia — 
por uma gruta e ali ninguém
possui a chave o abre-te-sésamo
dessa caverna de Ali Babá.

Quem abriria os seus baús? Pois algum dia
Todo homem foi algum pirata
Todo homem, alguma vez, náufrago foi
no poço do mar
com sua proa seu galeão.

Jazem ali cobertos de águas
velhos cadernos jamais escritos
talvez escritos — lidos jamais
de sua história suas vergonhas
glórias de sonhos e pesadelos.

Jazem histórias jazem cardumes dos outros homens
tempos e espaços de encruzilhada
também mulheres — muitas — algumas
uma talvez também um poço.

Homem nenhum sabe a história
sabe as histórias de outro homem.

Todo homem é um poço
se alguém chegar ao fundo dele
pode encontrar o ouro e a lama
baú de ossos com seus destroços:

levanta a tampa — ali ainda
sua bravura nunca cumprida
sua tristeza sua alegria:
não é preciso saber de quem
ali ainda estremecera — ainda dói —
o rosto mudo — pureza pura
de um pobre herói.

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