Poemas

“Seiva”, um poema de Kalew Nicholas

Inda guardo na pele teus talhos à goiva.
Tua voz, instrumento metálico à derme,
ornamenta com forma esse corpo indolente,
mas arranca os meus nervos das fibras já frouxas.

Entalhadas as mãos, feito eu fosse Davi,
tu me moldas os pulsos os ombros clavículas
e faz que cada traço — verniz sobre tília —
permaneça polido às mãos mais delicadas.

O brilhar da escultura reflete a tua face:
seiva lhe escorre dos olhos; lágrimas, de entalhes.
Feito o trabalho, com as mãos cheias de farpas,
a artista contempla sua obra de carne.

Mas, por belos que sejam os entalhes de artista,
aclamados que sejam os traços no ethos,
inda são expressão tua, não do objeto.
E esse sangue no chão não é mero detalhe.

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