ingem-lhe a fronte pálida e serena
Espinhos. Tem na face o laivo imundo
De escarros de judeus. No olhar profundo
Bailam trêmulas lágrimas de pena
E dó, pelas misérias deste mundo.
Pilatos, vendo-O assim, à turba acena:
– Ecce homo! – lhe diz. Mas a atra cena
Ao povo não comove, furibundo.
Do sangue de Jesus tem voraz sede,
Tem-lhe da carne fome, a plebe ignara!
E sobre o homem se lança, – como cães –
Que de peixes a Pedro enchera a rede,
Nas bodas a água em vinho transformara,
Multiplicara, no deserto, os pães!…
Na época da publicação do livro Espectros, Cecília Meireles tinha apenas 18 anos e ainda bebia muito da tradição literária, muitas vezes remetendo-se aos parnasianos. O livro é totalmente escrito em sonetos, que revisitam cenas históricas, como o incêndio de Roma, provocado por Nero, e a vida de Cleópatra e Marco Antônio.
No poema “Ecce Homo”, Cecília narra a jornada de Jesus Cristo até sua morte, de maneira narrativa e sem abstrações.
O poema começa in media res (no meio da ação), com a imagem de Cristo sendo agredido, cuspido pelos judeus e coroado com espinhos. Não há espaço para lamentações do eu-lírico: a narrativa é direta e impessoal. Aqui, cabe apenas ao leitor expressar os seus lamentos:
Cingem-lhe a fronte pálida e serena
Espinhos. Tem na face o laivo imundo
De escarros de judeus. […]
Porém, Cecília não é totalmente isenta na narrativa: ainda que o eu-lírico exponha as imagens de forma “indiferente”, a narrativa é permeada por contrastes. Primeiro, ela expõe a cena de horror; logo em seguida, retrata a atitude e o caráter bondoso de Jesus Cristo, incutindo, assim, o sentimento de injustiça no leitor.
Na primeira estrofe, enquanto é humilhado com os furos dos espinhos e com os cuspes dos judeus, Jesus apenas observa a multidão e chora de compaixão pelas misérias do mundo, sem demonstrar qualquer atitude de revolta.
Na segunda e na terceira estrofes, a poeta novamente retrata a maldade. À multidão, o homem é exibido (“Ecce homo!”), enquanto os homens, comparados a cães, querem sua carne e sangue.
Essa, que é a cena mais forte e visual do poema, se contrapõe aos milagres de Jesus, o homem que multiplicou o pão no deserto, encheu a rede de Pedro com peixes e transformou a água em vinho.
Cecília constrói o soneto por meio de contrastes e, como a tradição manda, reserva simbolicamente a última estrofe à resolução das tensões do poema com as imagens de santidade de Cristo.
Assim como Pilatos disse “ecce homo” para apresentar Jesus à multidão, Cecília Meireles nos diz “ecce homo” para demonstrar, por meio de contrastes, quem Jesus realmente era.
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