ó tu (poeta) tu (mão que incendeia 
com a lâmpada da voz a fria página) 
tu (que vives sem luz na escura aldeia 
que de luz só possui tua palavra 
e não sabe que é luz pois não se alteia 
além do velador) tu (cuja lágrima
seca em vão sem ninguém saber que é pranto)
tu (que só tens a Deus e é Deus teu canto)

tu (que baixas a fronte desde o sol 
até a lua) tu (que no teu livro 
anotas expressões como se um rol 
de roupas que ensaboas no encardido 
dos dias e das noites) tu (farol 
cego de sal) tu (girassol ferido 
de insolação) tu (mariposa em jogo 
de atração-repulsão com o próprio fogo)

tu (que és em ti o canto e o instrumento
esperando que o espírito do sopro 
sopre por teu nariz o aceso vento 
que te enche os mares dos pulmões de fôlego)
tu (que não tens o reconhecimento 
dos teus amigos que te pensam morto
para a vida e que vives com os vocábulos 
qual São Francisco vive com seus pássaros)

sê anônimo (sê desconhecido)
que importa ver teu nome publicado?
(serás menos poeta se esquecido 
ou serás mais poeta se lembrado?)
“tem bom ânimo” (como disse Cristo 
e qual disse David) “sê esforçado”
(consoante o Evangelho) “crê somente” 
(sim) segura (à Rimbaud) tua semente

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