Poemas

“O poeta desconhecido”, um poema de Marcus Accioly

ó tu (poeta) tu (mão que incendeia
com a lâmpada da voz a fria página)
tu (que vives sem luz na escura aldeia
que de luz só possui tua palavra
e não sabe que é luz pois não se alteia
além do velador) tu (cuja lágrima
seca em vão sem ninguém saber que é pranto)
tu (que só tens a Deus e é Deus teu canto)

tu (que baixas a fronte desde o sol
até a lua) tu (que no teu livro
anotas expressões como se um rol
de roupas que ensaboas no encardido
dos dias e das noites) tu (farol
cego de sal) tu (girassol ferido
de insolação) tu (mariposa em jogo
de atração-repulsão com o próprio fogo)

tu (que és em ti o canto e o instrumento
esperando que o espírito do sopro
sopre por teu nariz o aceso vento
que te enche os mares dos pulmões de fôlego)
tu (que não tens o reconhecimento
dos teus amigos que te pensam morto
para a vida e que vives com os vocábulos
qual São Francisco vive com seus pássaros)

sê anônimo (sê desconhecido)
que importa ver teu nome publicado?
(serás menos poeta se esquecido
ou serás mais poeta se lembrado?)
“tem bom ânimo” (como disse Cristo
e qual disse David) “sê esforçado”
(consoante o Evangelho) “crê somente”
(sim) segura (à Rimbaud) tua semente

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