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A pedra de Drummond 

Há um mito que nos faz pensar que os poemas foram reservados para as coisas profundas da existência. O verso deve transcender, ditar o futuro, salvar minha alma, adivinhar as tuas dores e nos fazer chorar. Mas a verdade é que a arte é expressão humana, e, sendo humana, os poemas não precisam de matéria filosoficamente complexa para atestar sua importância e qualidade. Portanto, a beleza pode ser expressa nos gestos e pensamentos mais banais do homem médio.

Foi com esse pensamento, no poema “Cidadezinha qualquer”, que Drummond descreveu as cenas mais corriqueiras de uma cidade, tais como as de um homem, as de um cachorro e as de um burro andando vagarosamente. Depois de tanto, uma epifania era necessária: “Eta vida besta, meu Deus”. E não há como negar a sensação de acolhimento e nostalgia daqueles versos tão ordinários. 

Mas seu grande feito com o tema se deu em 1928, com a publicação do poema “No meio do caminho” na revista modernista Antropofágica, quando o poema mais simples e a imagem mais comum “dividiram o Brasil em duas categorias mentais”, segundo as palavras do próprio poeta. Para uns, o poema representava um atestado de loucura, uma piada modernista, a morte da poesia. Para outros, a pedra era a apoteose de Drummond: seus versos eram de absoluta genialidade.

E é evidente que um poema como esse, que se prolonga apenas pela repetição de uma mesma ideia, iria causar reações adversas. O poeta Mário de Andrade, em carta a Drummond em 1925, já previa a reação de desgosto do público:

“Vou mandar os poemas que prefiro pros diretores da Estética, que escolherão um ou dois ou três, não sei, pra publicar. Não mando “No meio do caminho” porque tenho medo de que ninguém goste dele. E porque tenho o orgulhinho de descobrir nele coisas e coisas que talvez nem você tenha imaginado.”

No entanto, como Mário de Andrade também apontou, há coisas e mais coisas na Pedra que merecem a atenção do leitor. 

O poema e seus elementos

NO MEIO DO CAMINHO

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra. 

Nunca me esquecerei desse acontecimento 
na vida de minhas retinas tão fatigadas. 
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho 
no meio do caminho tinha uma pedra. 

Para melhor compreender este poema, é preciso lembrar do seu contexto. Escrita em 1924, a Pedra reverbera o paradigma modernista: a crítica aos parnasianos, a linguagem informal, o verso livre e a simplicidade do pensamento. 

A repetição

É um poema de pensamento tão simples que se depurarmos seus versos, colocando-os da forma mais direta possível, teremos: 

“No meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.” 

Duas frases e três versos. Mas isso não seria suficiente para fazer poesia. A melodia seria fraca, e, dita uma única vez, a imagem, que é clara, não reproduziria o efeito desejado pelo poeta — o hematoma no imaginário do leitor. Para tanto, Drummond optou pela repetição. 

A repetição cria uma cadência psicológica, cujo efeito é de cansaço e de estranhamento. Eckart Sydow explica que a repetição significa a expressão mais simples da concentração do espírito, em virtude da qual se espera poder provocar um determinado efeito.¹ É com esse artifício que o poder religioso da oração se manifesta: por meio da repetição das “três ave-marias”, dos três padres-nossos.² 

Com essa linha de raciocínio, Drummond construiu a primeira estrofe apenas repetindo versos e invertendo a sua sintaxe: “no meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho”. Pela insistência, a imagem da pedra gera a força, como também atestou o poeta Manuel Bandeira: 

“Soube que o Mário lhe desaconselhara a publicação do poema, por julgá-lo o melhor exemplo de cansaço cerebral. […] Há ocasiões que no cansaço cerebral só fica uma célula lírica aporrinhando com uma baita força emotiva!

O verso livre

Como de costume no modernismo, os versos são livres, isto é, não seguem o rigor de uma métrica definida. Alguns teóricos mais rígidos diriam que se trata de um poema polimétrico, pois é possível notar resquícios de versos metrificados. Como exemplo, dos quatro versos da primeira estrofe, três são decassílabos, o que não é de grande surpresa, levando em consideração que dois desses versos são repetidos. 

O decassílabo, junto da redondilha maior, é o metro mais comum da poesia metrificada em português. O Tratado de Versificação de Olavo Bilac e Guimarães Passos denomina-o como o metro “mais belo da língua portuguesa, [pois] presta-se à expressão de todas as ideias, e é suscetível da maior variedade”. Assim, não é à toa que o decassílabo predomina até nos tempos atuais. 

No entanto, ainda que tenha escolhido um metro tradicional para abrir o poema, Drummond ironicamente utiliza um ritmo menos comum na língua portuguesa: um decassílabo cuja sílaba tônica repousa na quinta sílaba, dividindo o verso em duas metades:

 “No meio do caminho tinha uma pedra”

Diversos tratadistas consideram esse ritmo como verso de arte maior.³ Porém, pelo contexto do poema, qual seja, de crítica aos parnasianos, pode-se entender a escolha do poeta como uma tentativa de causar estranhamento aos leitores mais tradicionais: iniciando o poema com um decassílabo de arte maior, para então subvertê-lo nos versos seguintes. E é essa mesma ideia que justifica a escolha do verso alexandrino – considerado um verso de difícil composição – na abertura da segunda estrofe. 

É ainda importante destacar a melodia do poema. A repetição e a inversão da sintaxe, já mencionadas neste texto, por si, produzem melodia ao poema. No entanto, Drummond adiciona um elemento a mais: na dança do som da palavra e sua representação, o poeta divide o verso “no meio do caminho tinha um pedra” por sonoridade.

Assim, a imagem do caminho, ilustrada na primeira metade do verso, é desenhada com fonemas suaves da letra ‘n’ e da repetição da letra ‘m’. Pois como explicam Bilac e Passos:

O ‘M’ entra docemente nas palavras que tocam o coração, como amor, amigo, meiguice, mamãe. […]

O ‘N’ em fim de sílaba é como o ‘M’’, prolonga o som; seguido de ‘H’, o ‘N’ é como se ficasse molhado, dá uma ideia de coisa líquida.

Por outro lado, a segunda metade do verso ilustra a existência da pedra por meio de sons mais agressivos, como os fonemas do  ‘t’,  do ‘p’ e do conjunto ‘dr’.⁴

O ‘B’ e o ‘P’ guardam muita semelhança entre si. Bumba, por exemplo, lembra-nos uma queda; ´pum’ lembra um tiro; tim-bum, uma pancada e um tombo. 

[…]

A letras ‘D’ e ‘T’ são como o ‘B’ e o ‘P’, porém mais enérgicas em suas representações. As quedas repentinas, as pancadas secas, tiros, tropeços, estalidos, são a prova do que afirmamos, dar, bater, matraca, bradar. 

Apesar das palavras de Bilac e Passos serem úteis para ilustrar o poder dos fonemas das consoantes, essa matéria é melhor compreendida intuitivamente, com prática, pelos sentidos do leitor. 

As referências e a repercussão

“No meio do caminho” remonta à tradição poética: como crítica aos parnasianos, Drummond satiriza o poema homônimo de Olavo Bilac, que, por sua vez, faz referência à Divina Comédia (Nel mezzo del cammin di nostra vita):

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma povoada de sonhos eu tinha…

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje segues de novo… Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

É fácil perceber que a técnica de repetição e de inversão sintática de Drummond faz referência direta à primeira estrofe de Bilac. Além disso, o tema, algumas imagens e até certas palavras características da Pedra – como o adjetivo “fatigado” – são as mesmas utilizadas pelo poeta parnasiano. 

É nítido que, enquanto Bilac escreve um poema sério, de gramática correta e de conteúdo “profundo”, o modernista satiriza o poema-referência. Assim, simplifica sua ideia a três versos, abre o poema com um decassílabo provocante e até mesmo subverte a gramática, trocando a palavra “havia” por “tinha”. 

No entanto, por ironia do destino, a brincadeira se inverteu, e o que seria uma sátira boba se tornou realmente um obstáculo no caminho de Drummond: por conta do poema, o poeta foi motivo de chacota, como relatado por ele mesmo:

“Professores de português […] espalhavam pelo Brasil inteiro […] que o modernismo era uma piada ou uma loucura, e como prova liam o poeminha da pedra. Sucesso Absoluto de galhofa. Imagem gravada na mente de milhares de garotos que daí por diante assimilaram o conceito de modernismo-pedra-burrice-loucura. 

Mais de uma vez me disseram: ‘engraçado, eu pensava que o senhor fosse débil mental […] Desculpe: foi por causa da pedra no caminho.'”

O legado

É certo que a fama de louco ou incompetente não durou tanto, diversos poemas publicados posteriormente apagaram-na e impuseram ao poeta um novo rótulo, o de gênio. No entanto, assim como, alisando o braço, lembramos as cicatrizes de nossa infância, Drummond recorrentemente tateava suas feridas eternizadas pela pedra. Mesmo no livro Claro Enigma, sua obra máxima, o poeta reflete no soneto Legado: 

Que lembrança darei ao país que me deu 
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti? 
Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
minha incerta medalha e a meu nome se ri. 

[…]

Não deixarei de mim nenhum canto radioso, 
uma voz matinal palpitando na bruma
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.

De tudo quanto foi meu passo caprichoso
na vida, restará, pois o resto se esfuma, 
uma pedra que havia no meio do caminho.

Em tom confessional, o poeta acredita que nenhum de seus versos caprichosos, mesmo aqueles capazes de arrancar de alguém um sentimento secreto, resistirão ao teste do tempo, no entanto, o poema mais sólido é eterno: “uma pedra que havia no meio do caminho”. Provocativo, dessa vez, Drummond respeita a gramática e usa o verbo “haver” no lugar do emblemático verbo “ter”, mas, depois de tanto, na noite do sem-fim, de que vale essa mudança? A resposta de Drummond é pessimista.

A redenção

Apesar do pessimismo, a realidade contesta a resposta de Drummond. O poeta é um dos mais importantes da história do Brasil e escreveu diversos poemas geniais, dentre eles, A Máquina do Mundo, que já foi considerado o melhor poema brasileiro de todos os tempos. 

Na Máquina do Mundo, mais uma vez, o poeta voltaria ao tema da pedra no meio do caminho. Porém, dessa vez, não escreveria uma sátira a Bilac; na pedra, esculpiria um monumento ostentado nos ensinamentos deixados por Dante Alighieri.

Utilizando a terza rima – forma consagrada do poeta florentino – Drummond escreve a Máquina do Mundo, como se revisitasse não apenas a Divina Comédia, mas também como se curasse de uma vez por todas as feridas deixadas pela pedra. Revelado o obstáculo – a máquina do mundo –, e superado o seu enigma, o poeta segue caminho:

E como eu palmilhasse vagamente 
uma estrada de Minas, pedregosa, 

[…]

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto 

[…]

A treva mais estrita já pousara 
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera, 
seguia vagaroso, de mãos pensas. 

Conclusão

Todo poema deve ser autônomo semântica e ritmicamente. No entanto, não dá para ignorar o fato de que todo poema também está inserido num contexto maior, que é o da obra completa, ou mesmo da vida inteira de um poeta. 

No meio do caminho não é dos melhores poemas de Drummond. Apesar de características marcantes e técnicas bem utilizadas, o poema é simplista e de poucas pretensões. Assim, o objetivo dessa análise não foi tornar esses versos melhores do que eles realmente são, mas sim entender a importância que eles carregam dentro da obra do nosso melhor poeta. 

Massaud Moisés explica que cada poema constitui uma espécie de apreensão parcial de um todo que flui desde sempre no interior do poeta. Daí que, para conhecermos integralmente um poema, teríamos de percorrer os demais momentos em que essa continuidade do todo se manifesta, isto é, nos demais poemas. O que Moisés explica é uma forma diferente de se dizer que o poeta apenas reescreve o mesmo poema ao longo de sua vida, acrescentando-lhe novas descobertas de sua sensibilidade ou mudanças daquilo que comunica enquanto visão do mundo. Esse é o caso aqui abordado. 

Dessa forma, pode-se afirmar que No Meio do Caminho é um poema-chave e de grande importância para a história da poesia brasileira, pois apenas por meio do conhecimento desse poema é possível entender, em todas as suas dimensões, o melhor poema escrito em língua portuguesa – A Máquina do Mundo – e toda a poética de Drummond.

Notas e referências

  1. Eckart v. Sydow, Poesia dei popoli Primitivi apud Segismundo Spina. Na Madrugada das Formas Poéticas, p.47
  2. SPINA, Segismundo. Na Madrugada das Formas Poéticas, p.47
  3. SPINA, Segismundo. Manual de Versificação Românica Medieval, p. 57, 2ª ed. Ateliê Editorial. São Paulo, 2003. 
  4. Para aprofundar a representação dos sons das consoantes, ver pp. 73, 74 e 75 do Tratado de Versificação de Olavo Bilac e Guimarães Passos.

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