Poemas

Análise: “Flamingos”, de Henrique Nascimento

Henrique Nascimento, poeta e tradutor pernambucano, é um dos nomes mais promissores da poesia contemporânea. Suas traduções dos parnasianos franceses prometem preencher uma lacuna: a ausência de boas traduções de poetas como Théodore de Banville no Brasil. 

Neste breve artigo, analisaremos Flamingos, um de seus poemas de destaque, que integra o volume Pássaros na Noite.

O poema

Flamingos

Ocaso rosa claro
e flanam feito nuvens
flamingos pelo lago
atrás de algas vermelhas,
crustáceos oxidados.
       Esgarçado,
evade-se o horizonte.
E logo é noite. O céu
é claro ao plenilúnio.
Se dormem, os flamingos
não testemunham branco
virar vermelho, a lua
invejar suas plumas.

Mas um acorda; pensa
já ser dia de novo,
e quando vai comer,
para e olha pra cima.
Milésimo de instante
que o olho se liga à lua
e parece brilhar.

O uso das cores

Em seus dois primeiros versos, Henrique prenuncia as características dos protagonistas do poema antes mesmo de apresentá-los. A cor rosa, a leveza e a despretensão são evocadas por imagens isotópicas, ou seja, imagens que possuem unidade temática, e pincelam os flamingos que são apresentados nos versos seguintes. 

Assim, da mesma forma que o sol se põe – rosa –, também são os flamingos, que, no lago, ao fim da tarde, procuram seus alimentos que são vermelhos, cor de ferrugem. O poeta parece substituir o cientista, assumindo uma de suas funções mais antigas, e explica que é a alimentação daqueles pássaros que faz suas penas refletirem o fim da tarde.

É dessa forma que, logo no início do poema, Henrique estabelece uma paleta de cor redundante, derivada apenas do pigmento vermelho. No entanto, a redundância das variações de um mesmo tom, nesse caso, é positiva, pois, num quadro homogêneo, o poeta encontra variação por meio de movimento imagético e rítmico.

A recorrência do vermelho morre apenas com a chegada da noite, que, contrastando com as imagens anteriores, apresenta seus tons de azul e de palidez. No entanto, em pouco tempo o eclipse começa, e novamente o poeta vira cientista e explica que o astro inveja as plumas do pássaro, refletindo o vermelho, formando a lua de sangue. 

Nota-se que, apesar da cor vermelha geralmente se relacionar à violência e às paixões, o poema é suave e fluido. Por quê? Podemos dizer que a razão disso é a escolha de imagens pacíficas, o ritmo bem cadenciado e o uso de aliterações e assonâncias, que abordaremos nos próximos tópicos.

O ritmo: aliteração, assonância e rima

Um aspecto que salta aos nossos ouvidos no poema são as aliterações, assonâncias e rimas. Esses recursos, em um poema, não devem servir como meros adereços, mas como ferramentas para comunicar o que o poeta deseja.

De que forma Henrique faz isso? O autor foi muito feliz no verbo escolhido no segundo verso: “flanar”. Podemos dizer que o [ f ] é a mais suave das consoantes fricativas: o atrito com o ar não produz muita vibração nos lábios, tampouco nas cordas vocais, conforme pode ser estudado com mais profundidade na Nova Gramática do Português Contemporâneo, do Celso Cunha. Ter consciência de tais efeitos causados pelas consoantes é primordial para o poeta, que tem como única ferramenta a palavra.

Tendo isso em mente, podemos entender melhor o efeito que o verso “e flanam feito nuvens” causa: as aliterações em F passam a suavidade pretendida pelo poeta, enquanto o V, outra consoante fricativa (e labiodental), arremata o verso. “O V é o F mais áspero; o F, o V mais brando”, dizem Olavo Bilac e Guimarães Passos em seu Tratado de Versificação.

Para falar das assonâncias, recorremos mais uma vez a Bilac e Passos, que explicam o efeito de tais vogais na poesia de forma simples: o A, de acordo com os poetas, é “brilhante e arrojado”, enquanto o O é “animoso e forte”. É isto que vemos logo no início do poema: “Ocaso rosa claro”/”flamingos pelo lago”/”crustáceos oxidados”. Mas essas não são as únicas vogais recorrentes nos versos: ainda veremos o contraste que a vogal U causa.

No poema há a presença de rimas, como percebemos na primeira estrofe. No entanto, este poderia ser um excelente exemplo do que elucidamos em um de nossos artigos: não é necessário que um poema rime para ter um bom ritmo. 

Na verdade, “Flamingos” se destaca por utilizar diversos recursos sonoros, mas sem se escorar em nenhum como recurso último. As rimas, que são pouco convencionais, se dão pela excelente escolha de vogais: estamos falando mais de assonâncias do que de rimas. A vogal U, que é reiterada durante todo o poema (“nuvens”/“lua”/“plumas”/“plenilúnio”), é “funérea”, de acordo com Bilac e Passos. Isso tudo faz com que o poema seja ao mesmo tempo suave e melancólico.

Com isso, somos levados a refletir um pouco mais sobre o que vemos no poema:

O símile

O que é símile? Símile é uma figura de linguagem que compara dois objetos distintos para destacar determinada qualidade. 

Othon Garcia, ao expor esse conceito tão caro à poesia em sua obra Comunicação em Prosa Moderna, diz que no símile “não apenas os objetos comparados pertencem a níveis de referência diferentes, mas também o segundo deles é o representante por excelência do atributo que se quer ressaltar no primeiro, o que permite dizer que o símile se distingue da simples comparação por ser um exagero, uma hipérbole”. 

Além disso, é importante, embora não obrigatório, que os símiles de um poema pertençam a um mesmo universo temático. Dessa forma, o leitor percebe com maior clareza a unidade do poema, pois até mesmo as imagens usadas para comparação, sendo de um mesmo universo, não apresentam grandes variações no tom do poema. 

No poema do Henrique, isso fica muito claro: ao falar dos flamingos flanando sobre o lago, ele usou o símile das nuvens. As nuvens, nesse caso, são “representantes por excelência” da suavidade e delicadeza que os flamingos carregam. E as nuvens não são estranhas ao poema: há o ocaso, ou pôr do sol; há aves, que voam; olhamos para o céu e vemos aves, nuvens e o pôr do sol — é uma ligação lógica. 

Portanto, podemos dizer que um aspecto que salta aos olhos no poema do Henrique é este:

A unidade

De acordo com Algirdas Greimas, isotopia é a reiteração de significados que orientam o sentido de um texto, tornando-o homogêneo em relação a seus temas e imagens. Essa reiteração está associada à ideia de recorrência-repetição, tão defendida por Jakobson. Segundo esse autor, em todos os níveis da linguagem, a essência do artifício poético consiste nos retornos recorrentes. 

Basicamente, todos os artifícios da poesia poderiam se reduzir ao princípio do paralelismo, que implica repetição. Assim é possível perceber que a rima, a aliteração, a assonância, a métrica fixa e o ritmo são gerados a partir da recorrência de certos aspectos, sejam eles da sonoridade, do número de sílabas, ou da disposição das consoantes nas palavras. 

Ora, até mesmo o sentido original da palavra verso (do latim vertere, voltar, verter, virar) remete a uma forma de reiteração: aquela da volta das palavras à margem esquerda da folha, seu ponto de partida. 

Assim, é importante notar que a recorrência de elementos da linguagem, como as consoantes, não tem um fim em si mesma. Na verdade, como explicou Gerard Manley Hopkins, a sua força depende da capacidade de se entrelaçar com uma outra recorrência, que é a das ideias, das imagens e dos temas – o conteúdo do poema. 

Daí a importância da unidade: tornar o poema coeso a partir do paralelismo, que é a essência da poesia. 

Em nosso caso, falamos de unidade entre as imagens e entre os sons: Flamingos é um poema isotópico.

Isso pode ser percebido pela recorrência da cor vermelha, da forma geométrica da lua semelhante a do flamingo, pelas assonâncias e até pela métrica (todos os versos são hexassílabos, com exceção do sexto, que foge da simetria por um efeito autoexplicativo ao lê-lo: “Esgarçado”).

Entendendo esses aspectos do poema, concluímos com algo que pode passar despercebido para alguns:

A stimmung

No poema Flamingos, nos impressiona o efeito do encerramento, que está diretamente ligado com o alinhamento de ânimos (stimmung), conceito já abordado anteriormente. 

Após serem apresentados na primeira estrofe, os flamingos adormecem e perdem o espetáculo que se manifesta acima de suas cabeças — mas o eu lírico os testemunha. Quando o único flamingo acorda, confundindo a noite com o dia, fita a lua e é nesse instante que ele e o eu lírico se encontram.

No entanto, pode-se dizer que não só o eu lírico testemunha e se encontra com o único flamingo que acorda, mas o leitor também o faz. Os três últimos versos do poema quebram o tom distante da narrativa: o eu lírico, com o uso do verbo “parecer”, torna-se parte da ação, pois evidencia uma impressão pessoal. Tal fenômeno é explicado por Alfredo Bosi, em sua obra O ser e o tempo da poesia: “o ato de ver apanha não só a aparência da coisa, mas alguma relação entre nós e essa aparência: primeiro e fatal intervalo”. O autor explica: primeiro, o objeto aparece, “entrega-se a nós enquanto aparência”; depois, “com a reprodução da aparência, esta se parece com o que nos apareceu”. 

Normalmente, o alinhamento dos ânimos do eu-lírico e do leitor acontece de forma externa à narrativa, no entanto, no poema de Henrique, o fenômeno é evidenciado como efeito narrativo a partir do uso do verbo ‘parecer’, assim como explicou Bosi. Dessa forma, o leitor se aproxima e passa a enxergar o eclipse a partir da percepção onírica do narrador, fundindo-se a este e ao flamingo insone. E é nesse momento que sentimos o deslumbre e todas as percepções narradas no poema. 

Conclusão

Existe muito mais a ser dito a respeito de Flamingos, sendo que cada um desses tópicos merece uma explicação aprofundada direcionada aos poetas. Mas, com essa análise, o nosso maior objetivo é mostrar que existem bons poemas sendo escritos em nossa geração, havendo domínio da Técnica (com T maiúsculo). E, para entender mais sobre poesia, te convidamos a ler outras de nossas análises:

Referências

BILAC, Olavo; PASSOS, Guimarães. Tratado de Versificação. Editora Valer, 2012.

CUNHA, Celso. Nova Gramática do Português Contemporâneo. Editora Lexikon, 2021.

GARCIA, Othon. Comunicação em Prosa Moderna. Editora FGV, 2009.

GREIMAS, A. J.; COURTÉS, J. Semiótica. Diccionario razonado de la teoría del lenguaje. Gredos, 1982.

BOSI, Alfredo. O ser e o tempo na poesia. Companhia das Letras, 2000.

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