Poemas

Análise: “Legado”, um poema de Carlos Drummond de Andrade

Que lembrança darei ao país que me deu
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?
Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
minha incerta medalha, e a meu nome se ri.

E mereço esperar mais do que os outros, eu?
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.

Não deixarei de mim nenhum canto radioso,
uma voz matinal palpitando na bruma
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.

De tudo quanto foi meu passo caprichoso
na vida, restará, pois o resto se esfuma,
uma pedra que havia em meio do caminho.

— Carlos Drummond de Andrade, no livro “Claro Enigma”.


Antes de falar do poema Legado, temos que lembrar de um dos poemas mais icônicos da história da literatura brasileira, o No meio do caminho. 

Todos que estudaram em uma escola brasileira conhecem a imagem repetitiva da pedra no meio do caminho. E, como explicamos em um artigo, ela foi responsável por boa parte da obra de Drummond, pois gerou-lhe problemas e a fama de poeta louco, como se o poema realmente fosse um obstáculo em seu trajeto. 

Se, como o crítico literário Massaud Moisés explicou, o poeta escreve ou reescreve apenas um poema durante a sua vida inteira, podemos dizer que Legado surge da evolução do mesmo sentimento que gerou a pedra no meio do caminho. 

Mas, aqui, em contraposição, o poeta se rende e adota posturas diferentes. Como se negasse o modernismo da Pedra, Legado não poderia ser mais tradicional: um soneto em versos alexandrinos, com rimas, referência à mitologia grega (Orfeu) e carregado de um tom elegíaco. 

Não bastasse isso, a negação do modernismo fica ainda mais clara quando no último verso do poema a imagem da pedra no meio do caminho é evocada com correção gramatical, ao trocar o verbo “ter” por “haver”: uma pedra que havia em meio do caminho (“havia”, em vez de “tinha”).

O poema ainda carrega o sentimento de incerteza e de pessimismo. Drummond não sabe se deixará algo de bom para esse mundo caduco, onde nem mesmo Orfeu sobreviveria com seu dom de cativar tudo e todos com a beleza de sua música. 

É dessa incerteza que surge um dos melhores versos de toda a nossa poesia: a vagar taciturno entre o talvez e o se, que apesar de sua beleza e melodia, também não seria capaz de remir o mundo da desgraça.

E ainda que o poeta fizesse alguns versos capazes de ‘arrancar de alguém’ as suas dores mais íntimas, tudo isso se ‘esfumaria’ em função da prevalência daquela pedra no meio do caminho, vista no início da carreira de Drummond e que o acompanhou até o fim.

4 Comentários

  • ANDRE LINS DE ALBUQUERQUE LIMA

    Os dois poemas, “Legado” e “No meio do caminho”, parece-me ter – acidental ou incidentalmente? – uma íntima relaço com “O mito d Sísifo”…

  • Raimundo João Cardoso

    Maravilhoso todo esse conhecimento divulgados para o povo, cultura disseminada com maestria. Quanto aos poemas, suas análises nos revelam muito do oculto na obra do poeta maior, mesmo “tendo” uma pedra no meio do caminho: “…De tudo fica um pouco” Drummond ficou em nós para eternidade.

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