1.
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
2.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
“Tecendo a manhã” é o meu poema favorito do Cabral. Ele está presente no livro A Educação pela Pedra e constitui o que seria chamado de soneto cabralino. Aqui o poeta escreve versos metalinguísticos cuja genialidade se sustenta sobretudo na organização sintática, compondo um poema que vai muito além da metalinguagem.
A partir da imagem metafórica da construção da manhã, Cabral também ensina a forma de se fazer um poema: uma palavra puxando a outra que puxa a outra e mais outra e que, no fim, formará uma unidade que se sustenta por si própria; sem a interferência de assuntos externos à arte para definir a sua qualidade.
À princípio, o leitor desavisado estranhará as elipses do poema; porém, são essas omissões que o tornam tão interessante. O período “De um que apanhe esse grito que ele/ e o lance a outro” não faria sentido analisado isoladamente. No entanto, no contexto, após a leitura dos dois versos iniciais, é possível identificar claramente a intenção do autor:
“[Precisará sempre] de um [galo] que apanhe esse grito que ele [cantou] e o lance a outro”
Toda a técnica de omissão de Cabral condiz perfeitamente com a mensagem que o poema passa: apenas o conjunto de elementos é capaz de dar unidade. Assim, para reiterar essa ideia, o poeta emaranha o sentido de seus versos não apenas por meio de omissões, mas também pela coordenação de orações, marcada principalmente pelo elemento coesivo “e”:
e o lance a outro […]
e o lance a outro; e de outros galos
[…]
E se encorpando em tela
Honrando a alcunha de engenheiro concedida a Cabral, essa adição coordenativa faz um encaixotamento sintático – como se as orações estivessem sendo empilhadas numa construção –, o que reitera a imagem da manhã que está sendo tramada pelos galos e seus cantos que funcionam como fios.
Além disso, o enjambement é utilizado perfeitamente pelo autor. Aqui, reiterando a ideia de construção coletiva da unidade, o poeta quebra o verso e continua o mesmo período no verso seguinte, aproveitando-se dos sentidos e das imagens evocadas pelos verbos “lançar” e “apanhar”:
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; […]
Na segunda estrofe, a manhã já está formada e Cabral já não fala de galos e cantos. Sua construção nos transmite mais estabilidade, justificada pela escolha dos verbos no presente do indicativo e no gerúndio, que comunicam a atual ocorrência dos fenômenos, diferentemente dos verbos no futuro e no subjuntivo utilizados na primeira estrofe.
Assim, é possível perceber que ao mesmo tempo que Cabral emaranha as imagens dos cantos dos galos, ele utiliza recursos técnicos que transmitem a mesma sensação de dependência e unidade. Dessa forma, o poeta nos mostra a individualidade que compõe o todo, sempre partindo da ideia de progressão: um galo sozinho, outro galo, outros galos, todos os galos, para tramarem, no fim, a manhã – tecido que se eleva por si.