Poemas

Canto II de “Os Cantares”, de Ezra Pound, por Gerardo Mello Mourão

Os Cantares de Ezra Pound, aqui traduzidos por Gerardo Mello Mourão, bem como as epígrafes e notas, foram transcritos por Caleb Oliveira, que faz um cuidadoso trabalho de pesquisa a respeito da obra do cearense. Os Cantos I e III podem ser lidos aqui e aqui.

Sobre a tradução

A presente tradução foi retirada do Caderno RioArte, Ano 1 – N° 4, 1985, formato grande, 118 páginas, papel suntuoso, bela diagramação, fotos e desenhos admiráveis e artigos dos maiores especialistas da obra poundiana (T. S. Eliot, E. E. Cummings, Jorge Luís Borges, Windham Lewis, Stephen G. Nichols Jr., Piero Bigongiari, Mathurin Dondo, William Carlos Williams, Marianne Moore, Eva Hesse, Lawrence W. Chisolm, Guy Davenport, Hugh Kenner e outros). O poeta Gerardo Mello Mourão (quase ignorado pelas panelinhas literárias) foi o diretor da publicação, na época presidente do Instituto Municipal de Arte e Cultura do Rio. Como disse o Jaguar em O Pasquim, sobre esta edição especial: “Que pena que não haja mais loucos do tipo dele para dar aos leitores brasileiros preciosidades como esta. É o caso de comprar 2 exemplares, um para ler e outro para embrulhar direitinho e guardar avaramente. Porque depois desta, meus filhos, nunca mais.”

Epígrafes

“Ninguém se lembra hoje do nome de um só dos capitães de Florença que baniram Dante. Ninguém se lembra do nome do Primeiro Ministro da Inglaterra ao tempo de Shakespeare. Já hoje, passado tão pouco tempo, ninguém se lembra do nome dos algozes que enjaularam e martirizaram o poeta. Se um dia um desses nomes for lembrado, será apenas para o vilipêndio da história. O nome de Ezra Pound, porém — O Idaho Kid —, há de existir enquanto existirem os Estados Unidos da América. Mais do que isto: — enquanto existir a língua inglesa. E mais ainda: — aquele país e essa língua se extinguirão, no dia em que se apagarem da memória dos homens a presença do poeta”.

MOURÃO, Gerardo Mello. A Morte em Veneza Há Seis Anos. Jornal do Brasil, 1978.
Disponível em: https://bityli.com/gVhTigF

Em 1964, o grupo a que me incorporei, da Escola de Arquitetura da Universidade de Valparaíso, coordenou uma tradução dos Cantos, da qual se fez uma edição privada para os alunos. Nessa tradução trabalharam Winston Wilkins, Jorge Sánchez, Cláudio Girola, Alberto Vial e Juan Purcell. O texto é enriquecido por notas de Cláudio Girola. Em grande parte a presente tradução, feita diretamente do texto inglês da edição Faber & Faber — Londres, 1954 — acompanha a versão chilena, resultante de minuciosas consultas pessoais ao próprio Pound.

CANTO II

    Nada disso, Robert Browning,

    não pode haver senão um único “Sordello”.

    Mas Sordello, e o meu Sordello?

80  Lo Sordels si fo di Mantovana.

    So-shu agitou o mar

    Salta uma foca no alvor das falésias espumosas,

    Cabeça lisa, filha de Lir

        olhos de Picasso

    Sob negra coifa de peles, ágil filha do Oceano;

    E a vaga corre pelo sulco da praia:

    “Eleanor ἑλέναυς e ἑλέπτολις!“

         E o pobre velho Homero cego, cego como um morcego,

    Ouvido, ouvido para o rumor das ondas, murmúrios de vozes de velhos:

90  “Deixa-a voltar para os navios

    Voltar aos rostos gregos, antes que uma desgraça caia sobre nós,

    Desgraça e mais desgraça e praga praguejada contra nossos filhos,

    Ela se move, sim, move-se como uma deusa,

    E tem o rosto de um deus

       e a voz das filhas de Schoeney,

    E a ruína caminha a seu lado.

    Deixai-a voltar aos navios,

       voltar para entre as vozes da Grécia.”

    E lá, à beira-mar, Tiro

100  Torcidos braços do deus-mar,

    Ágeis tendões de água, agarrando-a, abraçam

    E a lâmina azul cinéria da onda os veste

    Água de claro azul celeste ao se quebrar ergue seu pálio

    Doce praia dourada de sol.

    As gaivotas abrem as asas

       beliscando entre as penas tensas

    As narcejas chegam para o banho

       desdobram as junturas das asas

    Estendem asas molhadas para o sol suas películas

110  E por Chios,

       à esquerda do estreito de Naxos

    Naviforme rochedo exuberante

       Algas aderem-se ao seu casco

    Há um fosforescer vermelho-vinho nos baixios,

       um relâmpago de lata no ofuscante sol.

    O barco encostou em Chios

       aos homens faltando água de nascente,

    E junto a uma lagoa entre rochas um adolescente na modorra do vinho

       “Para Naxos?” “Sim, nós te levamos a Naxos,

120  Vem conosco, rapaz.” “Não é por aí!”

    “Ora, para Naxos é por aqui mesmo.”

   “E eu disse: ‘este é um barco honrado’.”

    E um ex-presidiário da Itália

       Me empurrou pela estai da vante,

    (Estava sendo procurado por homicídio na Toscana)

       E os vinte todos contra mim,

    Loucos pelo pouco dinheiro dado por escravos.

       E levaram o barco de Chio

    E fora de rumo…

130     E o rapaz reanimou-se, de novo, com a gritaria

    E olhou por cima da proa

       E para o leste e para o Estreito de Naxos.

    Estratagema de Deus, então, estratagema de Deus:

       Barco encalhado no redemoinho

    Hera sobre os remos, rei Pentheu,

       uvas sem outra semente senão a espuma do mar

    Hera nas vigias.

    Sim, eu, Acetes, estive ali,

       e o deus estava ao meu lado,

140  Água cortando-se sob a quilha

    Singradura em frente, desde a popa

       da proa correndo a esteira

    E onde havia casco, agora há cepa de videira

    E sarmento onde houvera enxárcia

       folhas de parreira nas toleteiras

    Pesado pâmpano na haste dos remos

    E, de nada, um hálito

       calor de um hálito em meus tornozelos,

    Animais como sombras no vidro

150    uma peluda cauda sobre o nada

    Rosnar de lince e um pantanoso odor de feras

       em que havia cheiro de pez

    Farejar e rastejar de feras,

       centelha de olho desde o negro ar

    O céu aberto, enxuto sem qualquer tempestade,

    Farejar e rastejar de feras

       pelos roçando pele de meus joelhos

    Crepitar de espigas no ar

       formas secas no éter.

160  E o barco como uma quilha no estaleiro

       pendurado como um boi no guindaste.

    Baliza encalhada na rota

       cachos de uvas nos ganchos,

       vácuo de ar enchendo o couro.

    Ar sem vida adquirindo nervos,

       ócio felino de panteras,

    Leopardos farejando brotos de videira nas escotilhas,

    Panteras agachadas na vigia da proa

    E à nossa volta o mar azul-profundo

170     verde-avermelhado em sombras,

    E Lyeus: “desde agora, Acetes, meus altares,

    Sem temor a qualquer escravidão,

    Sem medo dos felinos selvagens

    A salvo com meus linces,

    Cevando com uvas meus leopardos,

    Olíbano é meu incenso,

       as videiras crescem em meu louvor.”

    Ondas de volta agora mansas nos cabos do leme

    Negro focinho de um porco marinho

180      onde Lycabs tinha estado

    Escamas de peixe sobre os remeiros.

       E eu adoro.

    Eu vi o que vi.

       Quando trouxeram o rapaz eu disse:

    “Ele tem um deus dentro de si,

       embora eu não saiba que deus.”

    e eles me empurraram para os estais de vante,

    Eu vi o que vi:

       A cara de Médon como a cabeça de um peixe-galo

190  Braços reduzidos a barbatanas. E tu, Penteu,

    Bem farias em ouvir a Tirésias e a Cadmus,

       do contrário a sorte te abandonará.

    Escamas de peixe nos músculos das virilhas,

       rosnar de lince pelo mar…

    E anos depois

       pálida nas algas vermelho-vinho,

    Se te inclinares sobre a rocha,

       a face de coral entre a tinta da onda,

    Palidez de rosa ao vaivém das águas,

200     Eleutéria, clara Dafne de litorais,

    Os braços de nadadora feito ramas,

    Quem dirá em que ano,

       fugindo de que bando de tritões,

    A lisa testa vista e entrevista,

       agora ebúrnea placidez.

    E So-shu agitou o mar, So-shu também,

       usando por bastão a longa lua…

    Ágil redemoinho de água

       tendões de Poseidon,

210  Negro azulado e hialino,

       onda de vidro sobre Tiro,

    Cerrada coberta, inquietude,

       coruscante rodopio do cordão das ondas,

    Depois água quieta,

       quieta na areia alaranjada,

    Aves marinhas estirando junturas de asas

       chapinhando em poças na rocha e poças na areia

    Ao vaivém de ondas pelas pequenas dunas;

    Reflexo de vidro da onda na arrancada de marés contra luz do sol

220     palor de Héspero,

    Crista cinza da onda

       onda, cor de polpa de uva,

    Cinza-oliva perto,

       longe cinza-fumo do talude da rocha,

    Rosa-salmão das asas do falcão do mar

       matizam sombras cinzentas sobre a água

    A torre como um grande ganso de um só olho

       alonga-se por cima do olivedo,

    E ouvimos os faunos resmungando a Proteu

230     no cheiro de feno sob as oliveiras,

    E as rãs cantando contra os faunos

       à meia-luz.

    E…

Notas

Versos 77-78

Robert Browning, poeta inglês da época vitoriana. Nasce em Camberwell no ano de 1812 e morre em Veneza ao ano de 1899. Suas obras mais destacadas são: “Paracelsus”, “Dramatis Personae” e “Sordello”. Importantes são também suas traduções para o inglês de alguns autores gregos e certos poetas provençais. “Do bimestre janeiro/fevereiro do ano 1919, citamos um trecho pertencente ao ensaio de E. P. sobre “traduções de Ésquilo”: … Browning se revela poeta em alguns versos como “Dust, mut’s thirsty brother” (pó, sedento irmão do lodo). Admito que o verso pode aparecer como algo um tanto fácil, talvez seja assim mas é Inglês, ainda que seja o peculiar inglês de Browning; assim como, por outro lado “dust, of mud brother thirsty” não seria inglês de modo algum. E se tratei com extrema severidade a primeira passagem citada não se pode negar que li Browning de cima para baixo durante dezessete anos, com grande prazer e admiração e sou uma das poucas pessoas que sabem tudo quanto diz respeito a seu “Sordello”.

cf. “The egoist”, VI, 1.

“Dante e Browning têm suscitado e provocado tal interesse por Sordello de Goito que não é inoportuno transcrever a breve nota biográfica que sobre ele aparece em um manuscrito da Ambrosiana de Milão, cujo cabeçário ou “razó” diz assim: “Lo Sordels se fo di Mantovana”.

cf. “Literary Essays of E. P.” (Faber and Faber London MCMLIV) do ensaio sobre “Trobadours Their Sorts and Conditions”.

“Da personalidade de Sordello de Goito (nasce em torno de 1200, morre depois de 1269) temos três imagens. A primeira é a de seu antigo biógrafo que o representa como homem gentil e de boa aparência, bom cantor, bom trovador e grande boêmio, ainda que “mont truans e fals vas domnas e vas los barons ab cui el estava”. Raptor — pela vontade de Ezzelino — de Cunizza da Romano, irmão de Alberico e Ezzelino, mulher do conde de São Bonifácio e depois sedutor de Otta de Estrasso, suscitando iras e desejos de vingança, teve que abandonar a risonha Marca de Trevisso e ir embora para Provença onde se alojou na corte do conde Rámon Berenguer IV e amou uma bela provençal para quem compôs, segundo disse o mesmo biográfico, muitas boas canções sob o ‘senhal’ de doce inimiga” Um aventureiro, em poucas palavras, o Sordello retratado pelo antigo biógrafo, como muitos outros que pertenceram ao mundo da truanice, da “boemia” trovadoresca. A segunda imagem do Sordello é a que nos oferecem dois solenes documentos. Um deles é o “Breve” de 22 de fevereiro de 1261 em que o Papa Clemente IV reprovava a Carlos de Anjou — que havia conquistado o Reino de Sicília e Puglia — sua inaptidão para com os barões provençais que lhe haviam ajudado na empresa. Entre estes, que pelo egoísmo de Carlos de Anjou haviam acabado em asilos para mendigos, o Pontífice recorda também Sordello: “Languesce, em Novara, Sordello, tu “cavaleiro”, o que te conviria adquirir se já não te tivesse feito bons serviços mas não readquiri-los pelos serviços que te fez”. Outro documento é a carta de 5 de março de 1269 com que Carlos de Anjou concede como feudo a Sordello de Goito “seu amado cavaleiro familiar e fiel” alguns castelos nos Abruzzos, para justificar sua generosidade Carlos de Anjou fala dos grandes, gratos e caros serviços de Sordello. Por estes autênticos testemunhos conhecemos um Sordello que depois de sua ida a Provença, no início da corte de Rámon de Berenguer e mais tarde no séquito do genro deste, Carlos de Anjou, chegou a ser um personagem de primeiro plano; o que nos é confirmado pelo fato de que o nome de Sordello, sempre precedido da qualificação “Dominus” aparece em muitos documentos solenes da corte do conde de Provença. A terceira imagem é a grandiosa representação que Dante fez de nosso trovador no Canto VI do “Purgatório”, V. 58-75 onde Sordello como escreveu Novati “na alta beira do Ante-Purgatório, desdenhoso e imóvel sua arrogante atitude… se nos aparece como o homem no qual o poeta quis encarnar, o mais sublime dos afetos humanos… o amor à pátria”. Entre a primeira e a terceira destas imagens há um forte contraste, muito diferente do exímio cidadão representado por Dante e o Sordello falso que corre atrás das mulheres e dos nobres pronto a realizar os mais baixos serviços para Ezzelino tal como ele nos é retratado pelo antigo biógrafo, cuja história parece confirmada pelas violentas invectivas que contra o trovador dirigem os poetas rivais. Entre as duas imagens porém medeia a que nos oferece o breve (decreto) apostólico e a carta real; as quais nos informam que Sordello não se deteve nas loucuras e misérias de sua juventude senão que chegou a ser na Provença um cavaleiro nobre e austero, familiar e conselheiro de príncipes e grande senhor, até o ponto de justificar completamente o juízo de Dante. E sua obra poética — quarenta e cinco composições líricas e um breve poema didático, o “Ensehamen d’onor” — tem um tom nobre e elevado, ou seja, que fica longe do espírito despreocupado da juventude do poeta…”

“Nascido possivelmente, da leitura de Dante, “Sordello” é com “Paracelsus” e “Paulina”, o terceiro de um grupo de poemas que expressam perplexidade, as provas, os erros e a salvação final de seu espírito superior, de um gênio que vive entre os perigos e as tentações do mundo. A Sordello, poeta do século XIII se lhe faz viver aqui na aura de seu tempo e entre as lutas de guelfos e gibelinos. Ezzelino, senhor de Vicenza, fora desterrado de sua cidade. Sua mulher, Adelaida e um filho de tenra idade, são salvos pelo arqueiro El Corte. Também Retrude, mulher de Salimguerra, aliado de Ezzelino é salva porém morre ao dar a luz a Sordello. Adelaida, para evitar futuras disputas com seu filho faz com que Sordello passe por filho de El Corte e o educa como pajem em seu castelo de Goito. Sordello revela-se dotado de imaginação poética e sua vida se faz cada vez mais irreal e mais distante das coisas que lhe rodeiam. Poeta, triunfa sobre o trovador Eglamour. Entretanto, durante uma crise das lutas políticas se descobre que Sordello é filho de Salimguerra e que o poder e o mando são seus, se ele os quiser. Apesar de seu amor pela bela Palma, filha de Ezzelino, e dos conselhos de seu pai que lhe incita a ceder e escolher uma vida ativa, inferior à vida com que sonha, Sordello não sabe decidir-se senão quando está próximo da morte, a abandonar seu elevado ideal de vida espiritual. Morre, em luta interior, em conflito entre suas idéias filosóficas e poéticas com as práticas que se lhe impõem e que lhe sufocam, carregado de doutrinas. O poema é um dos mais difíceis entre todos os de Browning, por uma obscuridade que deriva em grande parte de uma auto-análise refinada até o hermetismo.”

Verso 81

So-shu; Imperador da China.

Verso 83

“… à Deusa Danun estava unido por laços de parentesco o deus Lyr ou Lyr ou Ler, nome que provavelmente designa um Oceano.”

cf. “Mitologia Universal Ilustrada” (Ed. Joquín Gil, Bs. As. 1960) Cap. Mitologia Céltica, pág. 205.

Verso 87

Alienor ou Leonor de Aquitânia, rainha da França e depois rainha da Inglaterra. Filha de Guilherme X e neta de Guilherme IX de Poitiers, senhor feudal e trovador. Nasce no ano de 1122 e morre na abadia de Fontevrault no ano 1204. Casa-se com Luís VII, o jovem, rei da França no ano de 1137. Deste matrimônio tem duas filhas: Maria de Champagne e Alix Blois. No ano de 1152 Luís VII pede a nulidade de seu matrimônio e a obtém no concílio de Beaugency. Alienor se casa dois meses depois de espedido o decreto de nulidade, com Henrique Plantagenet, posteriormente Henrique II rei da Inglaterra. Deste matrimônio nascem quatro filhos: Henrique, o Jovem, Godofredo de Bretanha, Ricardo Coração de Leão e João Sem Terra e uma filha, Alienor, rainha de Castela. “O abade de Saint-Denis (Surger) continuava dirigindo os negócios correntes do reino; nas questões de alta política, porém, tinha o rei um conselheiro a quem se reconhecia incapaz de resistir. Sua jovem esposa, Alienor, lhe inspirava uma ternura apaixonada e ciumenta, quase “imoderada” (“amore inmoderato”, segundo a frase de João de Salisbury em “Historias pontificalis”). A rainha acostumada à vida fácil das cortes do Sul da França, amiga da poesia e dos poetas, sensual, com outras tantas damas divinizadas pelos trovadores, nunca encontrou entre as tradições de sua família o respeito ao clero e às coisas santas. Seu avô, Guilherme IX zombava com freqüência dos clérigos e resistiu abertamente à vontade dos papas. Seu pai Guilherme X havia sido adversário de Inocêncio III e São Bernardo. Alienor arrastou pouco a pouco seu marido para ousadias inesperadas por parte daquele antigo aluno do claustro de Nossa Senhora”

cf. “Historia General de Francia” E. Lavisse. (Ed. Española 1910. Madrid). Tomo II, pág. 3.

“Foi a queda de Edesa o que determina a segunda cruzada. O piedoso Luís VII tomou a iniciativa desde 1145 e foi pregada por São Bernardo na França e na Alemanha, em meio a grande entusiasmo. O imperador Conrad partiu em maio de 1147 e Luís VII, acompanhado de sua esposa Alienor, no mês seguinte. Desde o início até o fim, esta empresa é esterilizada pelas dissenções entre os cristãos, desavenças antigas entre o imperador e o rei da Sicília, Rogélio II; rivalidade entre este que reivindicava o principado de Antióquia, e Raimundo de Poitiers, que o possuía e queria guardá-lo; quere-las entre os cruzados alemães e franceses, egoísmo do imperador bizantino Manuel Comnéne e ódio entre gregos e latinos, ciúmes entre barões cristãos da Terra Santa e entre eles e os cruzados. Por temor à ambição de Rogélio II, que ofereceu navios a Luís VII, a via terrestre foi escolhida; alemães e franceses passaram sucessivamente por Constantinopla. Desperta assim a pretensão de Manoel Comnéne: acreditando que os cruzados lhe tirariam as castanhas do fogo, reclama antecipadamente a soberania das terras que vão conquistar nas antigas possessões do Império Romano. O orgulhoso imperador Conrad nada fez para conciliar-se com o imperador de Bizâncio. Os gregos e os cruzados, fossem “estes alemães ou franceses, se exasperam mutuamente”. Pouco faltou para que Constantinopla não fosse tomada de assalto por parte dos ocidentais. Durante toda a campanha da Ásia, os cruzados não puderam obter dos gregos mais do que um apoio intermitente interrompido pelas traições, um abastecimento insuficiente e transportes incompletos. Conrad, esperando obter somente sucessos decisivos, passou para a Ásia sem esperar os franceses e fez assim exterminar a maior parte de seu exército pelos turcos, perto de Dorilia em 26 de Outubro de 1147. Luís VII, durante a primeira parte da expedição mostra-se prudente e valoroso, chegando com sua cavalaria quase intacta em Atióquia (Março de 1148). Porém, em seguida, comete erro atrás de erro. O príncipe de Antióquia, Raimundo de Poitiers, tio de Alienor lhe propõe aproveitar-se do terror dos turcos pela chegada de tão brilhante exército e destruir o império fundado por Zengy. Luís VII, antes, quer fazer uma peregrinação a Jerusalém e rechaça a idéia de Raimundo. Este, que era um cavaleiro sedutor, bem falante e rancoroso de caráter, se vinga de Luís VII; sabemos de que maneira. Alienor se deixa cortejar por ele. Quer permanecer em Antióquia e divorcia-se imediatamente de Luís VII, porém uma noite este a rapta e a leva para a Palestina. Ali reencontra Conrad. Havendo fracassado em suas empresas (julho de 1148), Conrad embarca em 8 de Setembro e Luís VII, depois de passar as festas de Páscoa em Jerusalém, volta à França, chamado por Surger, passando por Roma, onde o Papa Eugênio III trata de reconciliá-lo com a esposa…”

cf. “L’Essor des États d’Occident” de Ch. Petit Dutaillis. (Ed. Presses Univ. des Français-Paris 1944) Tomo IV.

“… Alienor regressou grávida de Roma, mas do mesmo modo que antes, não deu a Luís VII o herdeiro varão que esperavam; ela, que havia de ter cinco filhos com Henrique II, deu à luz a sua segunda filha e este foi sem dúvida um motivo que não esqueceram seus inimigos quando tratavam de excitar o mau humor de Luís VII. O prudente Surger morrera em 13 de janeiro de 1151 e aqueles tomaram novamente a ofensiva. Naquele mesmo ano Henrique Plantagenet fez uma visita à corte e Alienor ficou impressionada com ele. “Luís, aceso de ciúme, partiu para Aquitânia com Alienor, mandou destruir as fortificações começadas e fez regressar as guarnições que ali tinha”. Estava resolvido a pedir a nulidade de seu matrimônio e enquanto isso prosseguia com a evacuação da Aquitânia. Finalmente, um Concílio reunido em Beaugency em 21 de março de 1152 pronunciou a dissolução do matrimônio real devido ao parentesco. Era tão cobiçada a mão de Alienor que ela teve de voltar à Aquitânia de noite e em segredo para escapar dos pretendentes que intentavam raptá-la. Evidentemente ela já estava de acordo com Henrique Plantagenet e se casaram em menos de dois meses depois, por volta de 18 de maio de 1152. Em vão, Luís VII, que compreendeu o perigo demasiadamente tarde, se opôs ao matrimônio, que fazia de Henrique, ainda antes de chegar a ser rei da Inglaterra, um vassalo muito mais poderoso do que seu próprio senhor. A perda de uma mulher que amava apaixonadamente parece afetar Luís VII e ele atua, a partir daí, com as energias alquebradas.

cf. “Monarquia feudal em França y en Inglaterra”, do mesmo autor. (Ed. Uthes — México 1956) pág. 86.

“… Suas reações contra o desenvolvimento do poder monárquico foram muito variadas. Pode-se ver com clareza, ainda durante a mesma sublevação geral de 1173/1174 qual foi a falha que deslocou o império angevino. A restauração da ordem durante os primeiros vinte anos do reino de Henrique II satisfez a classe média, cavaleiros, burgueses, porém não à alta nobreza. Por outro lado, esta classe não gostava muito deste rei administrador e legislador, que desdenhava os torneios e que só fazia a guerra por obrigação. No continente também Henrique II comprometeu as baronias em defesa dos oprimidos, restringiu os direitos dos senhores e confiscou castelos de vassalos rebeldes. Na Normandia os barões somente se continham por temor. Sobre o Loire Henrique II, nos primeiros tempos de seu reinado teve que sustentar uma guerra com o visconde de Thouars, que pretendia ajudar ao próprio irmão do rei para que permanecesse como dono de Anjou. Esteve constantemente em luta com os condes de Angulema, de Périgord e com o visconde de Bigorre. Os historiadores têm desnaturalizado o caráter destes conflitos: quiseram ver os barões aquitânios dirigidos pela voz do poeta-guerreiro Bertrand de Born, defendendo sua “nacionalidade” contra os ingleses. Na realidade, Bertrand de Born e os outros senhores do Sudoeste eram feudalistas, versáteis, incapazes de manter uma promessa e prontos a mudar de partido se achavam proveitoso fazê-lo. Sua impaciência para com o jugo e seu rico humor encontraram um sustentáculo na própria família real. Henrique II e Alienor muito rapidamente entram em discórdia. Alienor sonha em retornar à possessão de sua Aquitânia e viver rodeada de amáveis senhores e trovadores. Henrique II entrega o condado de Poitiers ao seu segundo filho, Ricardo, em 1169, deixando que Alienor se instale no palácio de Poitiers. Ela governa a Aquitânia em nome de seu filho, porém Henrique II não lhe concede mais do que uma semi-independência que não a satisfazia. No ano seguinte de acordo com os costumes capetianos Henrique associa seu filho maior, Henrique, o Jovem, à coroa assegurando deste modo na França a transmissão pacífica do cetro. Henrique, o Jovem, de imediato se faz muito popular: muito se celebra sua beleza, sua liberalidade e se dizia que ele reavivaria a cavalaria adormecida. Muito rapidamente seu pai se inquieta com esta popularidade, o rodeia de espiões, lhe tira o poder. O terceiro filho, Godofredo, se lamenta, por seu lado, de não poder governar real e efetivamente a Bretanha, da qual era supostamente conde. O escândalo pelo assassinato de Becket momentaneamente debilitou Henrique II e as concessões que faz à sua família sobreexcitam os apetites. Menos de um ano depois da penitência imposta ao rei pela Igreja, uma grande sublevação feudal, encabeçada por Alienor e seus filhos, estremece o império angevino de Henrique II, desde a Escócia até os Pirineus (abril de 1173). Alienor logo foi traída pelos senhores potevinos os quais veremos mais tarde cumulados de bens por Henrique II, sendo encerrada por seu marido em Chinon e posteriormente em seu castelo inglês. Não recuperará sua liberdade completa senão doze anos depois. Não foi igual a sorte de seus três filhos, Henrique, Godofredo e Ricardo, que se passaram para a “França” junto a Luís VII. Henrique, o Jovem, reivindica nada mais nada menos que o governo da Inglaterra, da Normandia e de Anjou. Tem como aliados todos aqueles que o poder de Henrique II havia inquietado, o rei de Flandres e da Escócia prometem sua colaboração. Alguns grandes condes ingleses tais como o de Leicister e o de Norfolk entraram em coalizão que por outra parte só tinham como programa a satisfação de seus apetites feudais. Excetuando-se, porém, o bispo de Durham, a Igreja inglesa lhe permanece fiel, o mesmo acontece com a grande massa do povo e os oficiais e Henrique II que sufocam a rebelião da Inglaterra sem que o rei se veja obrigado a dirigir a repressão. Este permanece na França e lhe são necessários dezoito meses de dura guerra para acabar com seus adversários…”

cf. “Lessor des Etats D’Occidente”, do mesmo autor. Cap. IX, pág. 119.

“… Ricardo não deixou herdeiros varões. Arthur tem por pai o terceiro filho de Henrique II e seus direitos podem passar por superiores aos do quarto filho, João Sem Terra. Graças à teoria da Monarquia eletiva e ao acordo entre os arcebispos Hubert e o mais influente dos barões anglo-normandos, Guilherme, o Marechal, João pôde sem grande dificuldade recolher a sucessão de Ricardo da Inglaterra. Na França foi poderosamente ajudado por sua mãe, Alienor. Ela foi uma das autoras da paz alcançada entre João e Felipe Augusto e teve o singular mérito de distinguir o proveito de uma aliança com a Burguesia.

pág. 125 do mesmo capítulo.

“… com freqüência serviu de intermediária uma pessoa e, em geral, uma pessoa de condição principesca ou senhorial a quem convinha agradar e cujos desejos se convertiam facilmente em ordem; e assim nomeamos, sem mais, a Leonor ou Alienor da Aquitânia, princesa culta, neta do trovador Guilherme IX de Poitiers, capaz ainda de entender o “tobar clus”, o poetizar obscuro ou enigmático, de um Cercamon e de fazer com que gostassem dele os poetas do Norte que freqüentavam sua corte ao lado dos meridionais, corte na qual se encontravam, por exemplo, seu amado e apaixonado Bernardo de Ventadour…

… logo vai reinar com ele não só sobre as ricas províncias que constituíam seu dote pessoal e sua herança paterna, como também sobre o Anjou, Normandia e aquela outra Normandia, francesa também por sua aristocracia conquistadora: a Grã-Bretanha. Temos provas de que aquele poderio atraiu para si por seu brilhantismo aos errantes e sempre pedinchões poetas…

… em Blois, na residência de Alix, irmã de Maria e filha também de Alienor, sem dúvida se sustentava igual entretenimento… desta maneira, Alienor e suas duas filhas sustentavam três cortes literárias, onde se encontravam unidas as matérias do Sul e do Norte…”

cf. “El arte de la Edad Media” de Gustavo Cohen. (Ed. Uthea. México 1956) Tomo 60, pág. 277.

“Alienor da Aquitânia… encarna a nova lei, a que põe o poderio do amor aos pés da mulher divinizada e coroada, da protetora e inspiradora dos trovadores, em especial de Bernardo de Ventadour, aquele que, em meados do século, melhor soube cantar o amor…

… ela, de início, saboreia as delícias do Oriente; pois, coisa rara, acompanha seu jovem esposo, o rei Luís VII na cruzada, porém não é para ajoelhar-se ante o Santo Sepulcro, senão para melhor oferecer seus ardores de bordelesa a Adônis, deixando-se levar pelos encantos das margens de Oronto e entregando-se ali a seu tio, Raimundo de Poitiers. Conheceu Geoffroy Rudel, senhor de Blaye, ansioso de amor distante e ao poderoso e duro Marcabrú e, sobretudo, viu crescer e desenvolver-se a geração poética de seu avô Guilherme e este sim que havia tomado parte inutilmente na primeira cruzada em seu feudo lemosino, à sombra de São Marcial, junto ao castelo de Ventadour, com Eblé e os trovadores de Ussel, pobres e faustosos e, mais tarde, Bernardo, talvez por quem se apaixonou e por quem, em todo caso, se deixou celebrar…”

cf. “La vida literaria en la Edad Media, de Gustave Cohen (Ed. F. de Cultura Econômica-México, 1958) pág. 61.

(Eleaus) significa “destruidora de navios”.

Ésquilo “Agamenon” 689. Eurípedes “Ifigênia” I. A. 1476, 1511.

A origem deste jogo de palavras sobre o nome de Helena é homérico.

Versos 90-98

“As próprias idéias de Pound sobre seus Cantos, expressas em 1927 numa carta a seu pai valem também muito mais que os sentimentos fugazes de quem quer que seja. Não revelam desconfiança, admiração, ironia?”: “Diversas coisas se evidenciam no poema. O mundo original dos deuses; a Guerra de Tróia, Helena nos muros de Tróia com os anciões que desfrutam de todo o espetáculo e sugerem que ela seja enviada de volta à Grécia.”

cf. “Pound”. Armando Uribe Arce. Cadernos do Centro de Investigações de Literatura Comparada. U. Chile (1963).

Verso 100

Tiro, filha de Salmoned, rei de Élide.

Ver “Odisséia”, rapsódia XI, 235-59.

Versos 111-194 

Esta passagem do poema canta a epifania de Dionísio a uns incrédulos marinheiros que são metamorfoseados em peixes como castigo à sua própria incredulidade. O tema original se encontra no “Hino VII a Dionísio” de Homero, 1-58; e posteriormente é retomado por Ovídio em “As metamorfoses”, livro III “Penteus e Acoetes” 510-692. Para a referência que se faz no verso 192 sobre Tirésias e Cadmo, ver “As Bacantes” de Eurípedes. No verso 172, Dionísio é nomeado por um de seus epítetos virgilianos: Liaus. “Eneida” IV, 58. John Brown diz, a propósito da utilização “da irrupção do divino na vida cotidiana”: que tal tema se repete constantemente nos “Cantos”. A epifania foi uma preocupação constante do grupo de poetas anglo-saxões, tais como Yeats, Eliot, Joyce.

“Panorama de la literatura norte-americana contemporânea”. (Ed. Guadarrama Madrid 1956).

Sobre este assunto, Harry Levín, em seu estudo sobre Joyce, diz: “Uma epifania é uma manifestação espiritual. Joyce acreditava que esses momentos chegam para todos, se somos capazes de compreendê-los. Às vezes em circunstâncias mais complexas, se levanta repentinamente o véu, se revela o mistério que pesa sobre nós e se manifesta o segredo último das coisas. É a intuição fulminante que teve Marcel Proust quando molhou um pedaço de “rosquilha” em uma xícara de tília.”

“James Joyce” (Ed. Breviarios FC. México 1959).

Verso 200

Eleutéria é um “demos” de Ática e o lugar por onde penetra nessa região da Grécia, proveniente de Tebas, o culto de Dionísio.

cf. “Vita e Cultura dei Greci” (Ed. Hoepli-Milano, 1910)

Para Dafne,

ver “Las Metamorfosis” de Ovídio, Libro I “Daphne” 442-595, assim como também “La vida del Dante” de Giovanni Boccaccio, cap. XI, pág. 105 (Ed. Argos Bs. As. 1947).

Verso 220

“Hespero, filho de Atlas, príncipe muito amado por sua justiça e bondade e muito aficionado ao estudo dos astros. Observando-os um dia no topo do Monte Atlas foi arrebatado pelo vento e seu povo deu seu nome ao mais brilhante dos planetas, o que hoje chamamos de Vênus e os antigos designaram, ainda, com os nomes de Véspero, Phosphoros, Lúcifer etc.”

Verso 229

Proteu, deus marinho, servidor de Posseidon e pai de Idotea. Ao meio-dia sai do mar para a praia de Faros e dorme no meio das focas e quando alguém tenta subjugá-lo se converte em algum animal, em água, em fogo, etc.

Ver “Odisséia”, rapsódia IV, 364-547. “Geórgicas” de Virgílio, Livro IV, 388-421-428-446-527.

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