Poemas

Canto III de “Os Cantares”, de Ezra Pound, por Gerardo Mello Mourão

Os Cantares de Ezra Pound, aqui traduzidos por Gerardo Mello Mourão, bem como as epígrafes e notas, foram transcritos por Caleb Oliveira, que faz um cuidadoso trabalho de pesquisa a respeito da obra do cearense. Os Cantos I e II podem ser lidos aqui e aqui.

Sobre a tradução

A presente tradução foi retirada do Caderno RioArte, Ano 1 – N° 4, 1985, formato grande, 118 páginas, papel suntuoso, bela diagramação, fotos e desenhos admiráveis e artigos dos maiores especialistas da obra poundiana (T. S. Eliot, E. E. Cummings, Jorge Luís Borges, Windham Lewis, Stephen G. Nichols Jr., Piero Bigongiari, Mathurin Dondo, William Carlos Williams, Marianne Moore, Eva Hesse, Lawrence W. Chisolm, Guy Davenport, Hugh Kenner e outros). O poeta Gerardo Mello Mourão (quase ignorado pelas panelinhas literárias) foi o diretor da publicação, na época presidente do Instituto Municipal de Arte e Cultura do Rio. Como disse o Jaguar em O Pasquim, sobre esta edição especial: “Que pena que não haja mais loucos do tipo dele para dar aos leitores brasileiros preciosidades como esta. É o caso de comprar 2 exemplares, um para ler e outro para embrulhar direitinho e guardar avaramente. Porque depois desta, meus filhos, nunca mais.”

Epígrafes

“Ninguém se lembra hoje do nome de um só dos capitães de Florença que baniram Dante. Ninguém se lembra do nome do Primeiro Ministro da Inglaterra ao tempo de Shakespeare. Já hoje, passado tão pouco tempo, ninguém se lembra do nome dos algozes que enjaularam e martirizaram o poeta. Se um dia um desses nomes for lembrado, será apenas para o vilipêndio da história. O nome de Ezra Pound, porém — O Idaho Kid —, há de existir enquanto existirem os Estados Unidos da América. Mais do que isto: — enquanto existir a língua inglesa. E mais ainda: — aquele país e essa língua se extinguirão, no dia em que se apagarem da memória dos homens a presença do poeta”.

MOURÃO, Gerardo Mello. A Morte em Veneza Há Seis Anos. Jornal do Brasil, 1978.
Disponível em: https://bityli.com/gVhTigF

Em 1964, o grupo a que me incorporei, da Escola de Arquitetura da Universidade de Valparaíso, coordenou uma tradução dos Cantos, da qual se fez uma edição privada para os alunos. Nessa tradução trabalharam Winston Wilkins, Jorge Sánchez, Cláudio Girola, Alberto Vial e Juan Purcell. O texto é enriquecido por notas de Cláudio Girola. Em grande parte a presente tradução, feita diretamente do texto inglês da edição Faber & Faber — Londres, 1954 — acompanha a versão chilena, resultante de minuciosas consultas pessoais ao próprio Pound.

MOURÃO, Gerardo Mello.

CANTO III

    Sentei-me nos degraus da Dogana

    Pois as gôndolas estavam muito caras naquele ano

    E não havia “aquelas moças”, havia um rosto,

    E o Buccentoro a vinte jardas, gritando “Stretti”,

    E as traves iluminadas, aquele ano, no Morosini

    E pavões, quem sabe, na casa de Koré

240    Deuses flutuam no ar azul-celeste,

    Deuses brilham e toscanos, de volta antes que caia o orvalho.

    Luz: e a primeira luz antes de cair o orvalho

    E Pans e Pans, e do carvalho, dríade,

    E da maçã melíade

    Por todo o bosque e as folhas estão cheias de vozes, 

    Em sussurros, e as nuvens se inclinam sobre o lago

    E há deuses sobre elas,

    E na água, a nadadora de alvor de amêndoas

    A água de prata cristaliza erectos bicos de seios

250    Como Poggio assinalou.

    Veias verdes na turquesa.

    Ou: os cinzentos degraus sobem entre os cedros.

    Meu Cid cavalgou até Burgos

    Subiu até o portão tauxiado entre duas torres,

    Golpeou com o cabo da lança e a menina saiu

    Una niña de nueve años,

    Na pequena galeria sobre o portão, entre as torres,

    Lendo o decreto voce tinnula:

    Que homem algum fale, alimente, ajude a Ruy Diaz,

260  Sob a pena de ser-lhe arrancado o coração e espetado numa estaca

    E seus dois olhos arrancados, e todos os seus bens seqüestrados,

    “E aqui, Myo Cid, estão os selos,

    O grande selo e o decreto.”

    E ele desceu de Bivar, Myo Cid,

    Sem falcões deixados lá em suas alcandoras

    Nem roupas nos armários,

    E deixou sua arca com Raquel e Vidas,

    Aquele grande baú de areia, com os agiotas,

    Para arranjar soldo para sua tropa;

270  Abrindo caminho para Valencia.

    Inês de Castro assassinada e um muro

    Aqui desmantelado, aqui sustentado de pé.

    Lúgubre ruína, o pigmento se esfarela da pedra,

    Ou o estoque se esfarela, Mantegna pintou a parede.

    Trapos de seda, “Nec Spe Nec Metu”.

Notas

Verso 237

“Nome de uma galera de gala com mastaréus, na qual o duque de Veneza embarcava todos os anos no dia da Assunção, para celebrar as cerimônias das bodas com o mar. Essa cerimônia parece que teve a sua origem no ano de 997 depois da primeira conquista da Dalmácia, sendo o Duque de Veneza Orsélo II, chegando a adquirir forma definitiva em 1177… Deve-se o nome ao monstro com cabeça de boi que figurava na popa; segundo outros o nome se formou com a partícula “bu” e a palavra “Centauro”; supõem outros que o barco era uma imitação do “Bistaurus” de Enéias e outros que “Bucentaurus” é corruptela de “Ducentaurum” (embarcação de 200 remadores). O nome surgiu por volta de 1289 e ainda que haja variado a forma primitiva da embarcação, o nome subsistiu, chegando a empregar-se a palavra por extensão, para designar a nave de luxo destinada a conduzir certos personagens importantes.”

cf. “Enciclopedia Espasa Calpe”, Tomo IX, pág. 1191, ver “Eneida” de Virgílio, livro V, 122-155-157 e o livro X, 195.

Verso 238

“Morosini, nome de uma ilustre família veneziana de remota antigüidade e que deu um grande número de homens célebres à sua pátria.”

cf. “Enciclopedia” ant. cit. tomo 36, pág. 1152.

“O palácio Morosini, ogival, do século XV… e também existe um Campo Morosini, no bairro Sub-Oeste de Veneza próximo da ponte da Academia no Grande Canal.”

Tomo 67, pág. 919.

O Partenón estava intacto em 1687. Naquela época o veneziano Morosini bombardeou a cidadela e um dos projéteis, ateando fogo a um dos barris de pólvora encerrados no templo, fez saltar parte dele. Depois, o mesmo Morosini fez descer as estátuas do frontão e as quebrou.”

cf. “História Universal” (Ed. Española, Madrid 1910) tomo IV, pág. 421.

Verso 239

Koré etimologicamente significava “A jovem filha”. Mitologicamente designava-se com este nome a filha de Deméter. Na Ática toma o nome de Perséfone e entre os romanos é chamada de Prosérpina. Hades se enamora dela um dia em que ela estava colhendo flores com a ninfa Ciane. O deus das regiões infernais raptou-a, apesar de sua resistência e levou-a para seus domínios… atribulada, Deméter, com o desaparecimento de sua filha e sabendo por Ciane o nome do raptor recorreu a Júpier que, segundo o hino homérico, enviou Erebos Argifontes com quem Hades a deixou ir embora… outras versões dizem que Zeus prometeu à mãe que resgataria sua filha se esta não houvesse comido nada na mansão infernal, porém como esta tinha comido uns grãos de romã, ficou como esposa de Hades e rainha do Erebos, se bem que podia passar uma parte do ano sobre a Terra em companhia de sua mãe.

ver também: “Ilíada” IX, 569; “Odisséia” X, 491, 494, 509, 534, 564, XI, 47, 213, 217, 226, 386, 635; “Il hino a Deméter”, 1490. “Alcestes e “Las Suplicantes” de Eurípedes, 855 e 34, respectivamente.

Verso 250

“Poggio di Guccio Bracciolini, chamado Poggio florentino nasceu no ano de 1380 em Terranova, no Valdarno Superior. Depois de haver estudado notariado em Florença, ajudado e aconselhado por Coluccio Salutati que se valia dele como copista. Salutati tem o mérito, também, de haver conseguido subtraí-lo do perigo de languescer entre as penúrias de uma família reduzida à miséria por pressões dos usuários. Também por recomendação deste o Papa Bonifácio IX lhe outorga o cargo de “escrevente apostólico” o secretariado de bulas e breves pontifícios. No mês de outubro de 1414 estava em Constança junto com a cúria do Papa XXIII, enquanto acontecia o Concílio. Nos anos 1415-1417 fazia algumas descobertas nos mosteiros trás-alpinos das mais importantes obras clássicas como a “De rerum natura” de Lucrécio e a “Institutio oratória” de Quintiliano. Em 1418 se trasladava a Roma convidado pelo Cardeal Henrique Beaufort, bispo de Manchester, permanecendo ali durante 4 anos. De volta a Roma em 1423, lhe foi conferido novamente o cargo de secretário de bulas e breves. Em 1436 casou-se com Vaggia, jovem mulher da família de Buondelmonti. Em 1453, chamado pela república florentina, assumiu o cargo de Secretário da Chancelaria de Florença. Morreu em 1459 e foi sepultado em Santa Cruz. De suas obras, as mais conhecidas são os “Liber Facetiarum” e a “História Florentina”.”

cf. “Storia Della Litteratura Italiana” de F. Flora. (Ed. Mondadori, Itália 1913). Tomo I, cap. II, pág. 469.

Versos 253-270

Adaptação do Poema do Mio Cid

Edición Paleografica del Cantar por R. Menéndez Vidal. Madrid 1911. V. 254-264 del Folio in caderno 1.°; 40-49 v. 265-267, del Folio in v. 268-271 del Folio 2v, 89-95.

Verso 271

Inês de Castro, esposa de Pedro I de Portugal, nascida em princípios do século XIV e morta em Coimbra em 7 de janeiro de 1355. Era filho de Pedro Fernandes de Castro, poderoso nobre de conhecida família da Galícia. Acompanhou Dona Constança, filha de Dom João e prima sua, ao casar-se esta em 1340 com Dom Pedro, Infante de Portugal. Inês impressionou profundamente Dom Pedro. Esta impressão se foi convertendo em paixão. Inês não aceitava as súplicas amorosas de Dom Pedro e só quando morreu sua amiga e prima, Dona Constança, em 13 de novembro de 1345, se fez amante de Dom Pedro. Nove anos mais tarde se casou com ele. Em 1355, Alfonso V, pai de Dom Pedro, transladou a corte para Montemor-o-velho e alguns inimigos dos Fernandes Castro persuadiram o rei de que era preciso reduzir as pretensões daquela casa poderosa tirando a vida de Dona Inês que ia ascender ao trono de Portugal. Aproveitando uma ocasião em que seu filho, o Infante, estava caçando, dirigiu-se secretamente ao palácio de Coimbra. Os cavaleiros do séquito do rei, com seu consentimento, entraram no palácio e assassinaram Dona Inês. A vingança de Dom Pedro foi terrível e os funerais que mandou fazer para sua esposa, suntuosos.

A lenda e as artes plásticas se apoderaram da figura desta princesa criando diversas obras. A de Luiz Vélez de Guevara (1578-1645). “Reinar depois de morrer” é a que mais fama alcançou. Modificou em parte a realidade história e é deste drama teatral que nos fica a imagem de uma Dona Inês proclamada rainha por seu esposo depois de morta. Sentado o cadáver no trono, ele a coroa e faz com que toda a corte lhe renda vassalagem.

Enciclopedia Espasa Calpe

Verso 275

“Nec Spe Nec Metu”: em latim: “Nem com esperança nem com medo.”

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