Poemas

“Estranha madrugada”, um poema de Ariano Suassuna

Alguém morreu na estranha madrugada.
Morreu sem lamentar-se inutilmente.
A noite escureceu sobre sua alma,
cravaram-se as estrelas no seu corpo.

Alguém morreu na estranha madrugada.
Homens velhos torceram-se na cama
e as colunas de sangue dessa morte
pesaram sobre a terra adormeceis.

Um homem? Uma mulher? A nós que importa?
A vida debateu-se no silêncio
e foi por fim tragada pelas águas
no fogo e no diamante incendiado.

E as colunas de sangue dessa morte
quebraram-se na aurora contra os muros.
Não houve pranto inútil nem lamentos:
Alguém morreu na estranha madrugada.


Este poema, na verdade, são as palavras finais do personagem Cego, na peça O Desertor de Princesa.

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