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Eu me arrependi dos poemas que publiquei?

“Se, porém, alguma vez vier a escrever algo, sujeite-o aos ouvidos do crítico Mécio, aos de seu pai e aos meus e retenha-o por oito anos, guardando os pergaminhos; o que você não tiver publicado poderá ser destruído; a palavra lançada não sabe voltar atrás.”
Horácio, em Arte Poética.

Quando decidimos que a Logopeia seria um coletivo de crítica literária, no sentido jornalístico da coisa, havia algumas questões me atormentando: 

  • “Como vou julgar a obra de terceiros, sendo que eu mesmo já publiquei tantos poemas ruins?”
  • “Será que as pessoas não vão ficar muito ofendidas quando tecermos críticas?”
  • “Será que vamos arrumar inimigos?”
  • “Será que não somos desqualificados, por sermos jovens e não termos sequer um diploma na área?”

Pois bem. Passei por cima de todas essas questões e estamos aqui, com atividades no blog, no Instagram, no Telegram e via e-mail. Mas, com esse texto, resolvi revisitar essas perguntas e tirar pelo menos uma parcela do peso das costas. 

Pode-se dizer que esse artigo é mais um desabafo do que um ensaio. Os bons prosadores que me perdoem.

As razões pelas quais eu publiquei

Devo ter publicado para lá de 200 poemas, em formatos digital e impresso. O início da empreitada foi em 2016, quando passei a escrever poemas para matar o tempo no trabalho. Fui fortemente influenciado pelo Leminski, que eu li durante todo o Ensino Médio, de modo que os poemas se resumiam ao que vocês já viram: trocadilhos e ritmos-chiclete. Do Gregorio Duvivier, como se meus mestres já não fossem exímios o suficiente, adotei a temática amorosa e aquela indecisão entre o lirismo e a piada.

Em 2017, arrisquei publicar alguns poemas, apesar da vergonha. Logo ganhei espaço em algumas revistas do Medium, como a Pensamentos Poéticos e a Fazia Poesia, que é a maior da plataforma no Brasil. 

Quando o volume era grande o suficiente para um livro, organizei o material, preenchi as lacunas com mais poemas fast-food e criei um e-book. Para o lançamento, usei a fórmula que todo marketeiro conhece: criei uma lista de e-mails no MailChimp, lancei um poema por conta própria usando a lista de CTA, passei a enviar e-mails com poemas inéditos por algumas semanas e, no fim, lancei o ebook, que teve cerca de 200 downloads.

Até aí, por piores que fossem os poemas, estava tudo bem. O grande problema é que eu continuei. Produzindo poemas numa velocidade assustadora, decidi autopublicar meu primeiro livro físico e, um ano depois, o segundo. 

As vendas do primeiro foram satisfatórias, a ponto de eu fazer uma reimpressão — mas não quero entrar nesse mérito. O segundo foi uma homenagem à minha mãe, tendo sido especificamente publicado no dia 26/06/2021 por razões afetivas — mas não pretendo entrar nesse mérito.

O objetivo do artigo é dizer por quê, a despeito dos elogios dos compradores e do vínculo afetivo que essas pessoas criaram com minha obra, eu considero a maior parte do que escrevi de ruim para horrível. Posso dizer que as razões principais que tornaram minha poesia uma bosta foram 1) a sujeição da palavra à melodia, 2) a sujeição da forma às ideias e aos sentimentos e 3) a tentativa de comercialização. 

Vamos por partes:

A sujeição da palavra à melodia 

Um dos fatores que comprometeu por anos a qualidade da minha poesia — sendo um empecilho ao meu desenvolvimento como poeta — foi a sujeição da palavra à melodia. Por ter me embrenhado por um gênero híbrido, musicalizando meus poemas, foram diversas as ocasiões em que o que eu escrevi soava bem aos meus ouvidos, mas desastroso no papel.  

Emmanuel Santiago, no artigo “Poema a ser cantado”, nos diz que as letras de música podem ser consideradas poemas. No entanto, existe um detalhe importante: na música, as palavras são subordinadas à melodia, permitindo recursos que tornam interessantes até mesmo letras banais (do melisma ao simples deslocamento de sílabas tônicas); no poema, por outro lado, a palavra está sozinha e deve se sustentar por si própria.

No meu caso, as palavras não se sustentavam por si, sendo dependentes de uma boa dicção, entonação e performance para serem interessantes — e olhe lá. 

No “Itinerário de Pasárgada”, o poeta Manuel Bandeira conta sobre suas empreitadas musicais: “Nesse ofício costumo pôr a poesia de lado e a única coisa que procuro é achar as palavras que caiam bem no compasso e no sentimento da melodia. Palavras que, de certo modo, façam corpo com a melodia. Lidas independentemente da música, não valem nada, tanto que nunca pude aproveitar nenhuma delas.”

Esse erro, em si mesmo, já tornou muitos dos meus poemas um desastre. É por isso que, em uma de suas aulas, o Brian Belancieri mandou eu decidir se seria poeta ou músico. Mas essa é só a ponta do problema, que reside principalmente no segundo ponto:

A sujeição da forma às ideias e ao sentimento 

Eu tinha uma concepção de arte e poesia que estava errada desde o começo — eu confundia a arte com a mera expressão de sentimentos. Se pegarmos uma definição da qual gosto bastante, do Paulo Cantarelli no ensaio “É bonito, mas é arte?”, vemos que “arte é qualquer expressão inteligível, gerada por técnica, que vise a um fim estético”. E eu sequer sabia o que era fim estético.

Qual é o resultado de enxergar a poesia de um jeito tão preguiçoso? Poemas que se importavam mais com as ideias — ora com o “sentimento”, ora com o panfleto — do que com a Beleza, no sentido filosófico. Sobre o primeiro, já falei; sobre o segundo, preciso entregar um contexto.

Em 2016, passei por um período de deslumbramento com o rap: fiquei impressionado com a forma como os rappers empilhavam referências que eu não conhecia, me obrigando a ir ao Google e aprender algo novo. Passei a enxergar, então, a poesia como essa forma de transmitir conhecimento através de alusões e referências. Mas, por mais que a poesia tenha a capacidade de fazer isso, não é esse seu fim.

O leitor não tem noção do quanto me ardem os olhos ao ler o que eu mesmo escrevi, mas preciso expor o desastre:

A escola é prima da cadeia,
mas é a melhor que eu tive.
Foucault reprova e incendeia,
mas os livros que me livrem.
Enquanto estudante paga meia
os professores tacam Nietzsche —
e quando sobra só a candeia
a luz do saber ainda resiste?

Todos os clichês de uma má dicção no rap se encontram nesses oito versos: as referências jogadas a esmo, as tentativas de punchline, a lição de moral e a dependência da imposição de voz para soar minimamente interessante. Eu brinco que, para um poema vir a público, ele precisa resistir ao teste da leitura debochada — eu gosto de garantir que, mesmo lendo com uma entonação satirizante, meu poema ainda chama atenção. E não é esse o caso. Recomendo que leiam tirando sarro do autor:

O coach me convence a ter metas:
defende o planejamento estratégico
pra vida que se confunde com guerras
de táticas de guerrilha pra paraplégicos,
ou com a papelada do serviço público
criando mais repelentes que alérgicos.

Incentivando esse controle frívolo,
a sociedade do cansaço perde o crivo:

     tudo é importante,
     nada mais faz sentido.

Sabem as críticas que fiz à Rupi Kaur? Eu me achava muito diferente dela, mas o espírito de ambas as obras é o mesmo: a sobreposição das ideias à forma e a tentativa desesperada do convencimento, de passar uma “mensagem”.

Entramos, então, na concepção de Arte Própria e Arte Imprópria, que pego emprestada de um trecho de Retrato do Artista Quando Jovem, do James Joyce: 

“Os sentimentos despertados por uma arte imprópria são cinéticos, desejo ou ódio. O desejo nos incita a possuir, a ir em busca de alguma coisa; o ódio nos incita a abandonar, a deixar para trás alguma coisa. Essas são emoções cinéticas. As artes que as provocam, pornográficas ou didáticas, são por conseguinte artes impróprias.”

Por estar analisando minha própria obra, consigo fazer algo que não posso fazer com os outros: analisar as intenções. E, por mais que essa autoanálise não seja uma ciência exata, posso dizer com certeza que meu objetivo com esse poema era retórico; eu queria alcançar o convencimento ou, pelo menos, a tal da “reflexão”. E, além disso, eu queria expressar algo que parecia preso às minhas cordas vocais.

Você já entendeu qual é o erro desse poema e, sendo poeta, saberá como evitá-lo. Mas precisamos estender esse tópico ao que não parece tanto com “engajamento”; por exemplo, um poema que deseja transmitir uma sabedoria, uma lição de vida, também pode cair na Arte Imprópria, panfletária ou didática.

Posso dizer que a melhor crítica que eu recebi na oficina de criação poética do Brian Belancieri foi quando, já tendo alguma intimidade comigo, ele adicionou uma nota ao lado do meu poema: “Valentina, 16 anos”. Eu percebi o quanto aqueles versos soavam adolescentes, autopiedosos e fracos, mesmo falando sobre um tópico tão importante para mim.

E não é que nenhum desses temas seja proibido à arte. Acontece que a forma como é abordado, bem como a hierarquia em que esses elementos se apresentam, ditam se o poeta será bem sucedido ou não. E eu, nesse caso, não fui: além do tom panfletário, nem falei sobre os versos de extremo mau gosto. Se pegarmos Latinomérica, do Marcus Accioly, encontraremos poemas panfletários, conforme bem apontou Felipe Fortuna em uma crítica ao livro, mas ainda temos alguma polidez na linguagem e cuidado com a forma; no meu caso, nem isso havia para testemunhar a meu favor. E entra a cereja no bolo do desastre:

A tentativa de comercialização 

Outro ponto que me fez escrever páginas e mais páginas de poesia ruim foi a tentativa de comercialização. Por um lado, deu certo, porque vendi alguns livros, recebi muitos depoimentos de pessoas genuinamente mexidas com o que eu escrevi e ganhei vários likes no Instagram. Por outro lado, o retorno não foi bom o suficiente para justificar um sacrifício tão grande da qualidade — tenho pra mim que o poeta que tenta alavancar sua obra através da viralização nas redes sociais vai ficar sem a qualidade e sem a popularidade. 

E isso me leva a concluir com uma pergunta:

Não tem nenhum amigo pra dizer: “Para, que tá feio”?

O mercado editorial carece de pessoas que, por imperfeitas e limitadas que sejam, tenham honestidade intelectual suficiente para tecer críticas, expor critérios e, no linguajar popular, dar a cara a tapa. Eu patinei por anos até encontrar alguém que comentasse meus versos com conhecimento, sinceridade e boa vontade.

Se você é mecânico, vê uma pessoa na estrada colocando gasolina no motor e não diz nada a respeito, você chega a ser sádico. O mercado editorial é repleto de pessoas assim: elas têm noção de técnica literária, mas se recusam a falar a respeito. Ou pior: foram convencidas de que tudo é uma questão relativa e subjetiva; talvez colocar gasolina no motor, no fim, seja a sua verdade. É como se dar uma dica de mecânico no rapaz do carro fosse ofensivo — e, mesmo que fosse, não é melhor isso do que estragar um carro inteiro?

Se eu dependesse apenas dos elogios que recebi pelo que publiquei, eu seria um poeta ruim para sempre: uma vida inteira de contribuições literárias pífias, perdendo tempo, energia e dinheiro. Foi por causa da boa vontade de quem veio me dizer “isso tá um lixo” que eu fui salvo dessa política sádica de boa vizinhança.

No fim das contas, é isso que sempre pretendemos com a Logopeia: não queremos faltar com respeito a ninguém a nível pessoal, mas estabelecemos um compromisso com a literatura e com os princípios que encaminharam nossa criação literária. Além disso, o compromisso com a sinceridade — seja derivada do juízo crítico ou do juízo de gosto. Isso me impede de elogiar alguns poemas, por achá-los horríveis. Mas gosto de pensar que, pela disposição de alguns que nos leem, isso fará com que tenhamos um mercado editorial mais maduro, ou pelo menos comprometido com a melhoria.

Pode ser que, num futuro próximo, eu me arrependa das críticas que tenho publicado na Logopeia. Pode ser que, dentro dos próximos anos, eu mude minha concepção sobre muitas coisas, assim como ocorreu tantas vezes. Mas, por ora, sou fiel ao que eu acredito — e faço questão de explicar por quais motivos. A palavra lançada, dizia Horácio, não sabe voltar atrás, mas ainda é possível corrigir-se com novas.


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6 Comentários

  • Kacio de Lima

    Concordo. Essa falta de criticidade por respeito ou cuidado para não machucar o autor de algum poema às vezes é bem pior, mas vem também de um reflexo do que vivemos. O Caetano que fala, em Anjos Tronchos, que há poemas como e qual nenhum poeta sonhou. Essa produção massiva vai perder em qualidade, como você mesmo ilustrou; mas, seus poemas viraram o portfólio de sua evolução como poeta. O importante é estar aberto à crítica, sempre.

  • Claudio Wagner da Silva

    Se teus poemas são ruins, tenho que ler para dar minha opinião, mas que esse seu texto é péssimo disso não tenho dúvidas. É uma confusão de ideias encadeadas numa busca de ter alguma “ideia”. É parece mais choro de aluno que saiu ruim numa prova e escreve como se tivesse entendido o porquê, porém, culpa o professor pelo seu fracasso na prova.

  • Natalia

    Gostei da temática, escrevo poesia (ou pelo menos tento) desde os 9 anos de idade, nunca publiquei nada. Os poucos que já leram afirmam que é bom, bem escrito e tal, mas considero um trabalho próprio para a gaveta, muitas delas considero terríveis em técnica, tem algumas ótimas ideias, mas sem boa excecução. Atualmente deixei de lado um antigo e tolo sonho de publicar poesia, já me basta escrevê-las por si só, sempre procurando melhorias que atendam o próprio ato de escrever.
    Gostei do seu texto, isso me fez refletir sobre minha própria maneira de pensar criticamente a minha criação literária.

  • Fabio Almeida de carvalho

    Em tempos em que um mero bater de palmas torna qualquer um fino percussionista, consciência crítica é produto raro.
    Parabéns pela reflexão.

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