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O que é poesia? Essências e medulas

Quando falamos de poesia, muitos escritos podem vir à sua cabeça. Talvez venha um poema do Drummond que você leu na escola. Talvez venha um texto da Rupi Kaur que você encontrou no Instagram. Talvez venha a fundação da literatura ocidental, que é a Ilíada, de Homero.

Mas será que tudo isso é poesia? Tratam-se todos de uma coisa só? Se sim, por que são tão distintos entre si?

Nesse artigo, pretendemos te dar uma luz para entender de uma vez por todas o que é poesia e o que não é. Mais que isso: falaremos sobre as diferenças entre poesia e prosa, bem como entre poesia e poema, abrangendo seus principais aspectos.

Antes de mais nada, esclarecendo uma confusão milenar

As vanguardas do século XX, como o movimento concretista, borraram as fronteiras entre o poema e as artes plásticas. Elas queriam que as palavras fossem imagens em si mesmas, em vez de descrevê-las. Isso nos deixa com um problema de etimologia que não existe em outras artes. 

Veja bem: eu não preciso te explicar o que é uma escultura. Se eu disser que essa frase aqui é uma escultura, você dirá, objetivamente, que eu estou errado. Com toda razão. Se eu disser que o Monte Rushmore é uma música, você também dirá de forma objetiva que eu estou errado. Por quê? Porque essas palavras possuem definições. 

Quando usamos palavras em um quadro, formando imagens com elas, estamos saindo do campo da poesia e entrando nas artes plásticas. Mas, para confirmar isso, precisamos definir o que de fato é poesia.

Qual é a diferença entre poema e poesia?

Apesar de serem empregados muitas vezes como sinônimos, não é simples assim. Podemos dizer que, a grosso modo, “poema” se refere à forma; “poesia” se refere ao conteúdo. Esse é o significado mais popular dessas palavras, que explicamos de maneira mais detalhada na aula 4 do curso “Como entender qualquer poema”.

Por ora, vejamos uma conceituação mais objetiva sobre cada um:

O que é poesia?

Segundo Ariano Suassuna, em suas aulas de Estética, a poesia é “uma linguagem com predominância da imagem e da metáfora sobre a precisão e a clareza”.

Ou seja, pode haver poesia em um filme, em uma pintura e até em um artigo como este. No entanto, a existência de poesia em um objeto não serve para classificá-lo como poema.

Então…

O que é um poema? 

A maioria das definições diz que poema é uma composição em versos; segundo o Dicionário, isto é um poema. No entanto, essa definição simples já gerou problemas — na Grécia Antiga, por exemplo, textos que nada tinham de artísticos eram postos em versos.

Veja o que diz Aristóteles no capítulo inicial da Poética: “se escrevem alguma obra em verso sobre Medicina ou sobre Física, costumam designá-los igualmente por poetas. Ora, nada há de comum entre Homero e Empédocles a não ser o metro; por isso será justo cha­mar a um poeta e a outro naturalista”.

Ou seja,
para ele não bastava
escrever desse jeito
para um texto ser
considerado poesia. Havia algo além da forma, no conteúdo, a definir o que é um poema e o que não é. O quê?

Na Logopeia, dizemos que poema é uma composição em versos em que o ritmo e as imagens são mais importantes do que outros aspectos. Ou seja, no poema a poesia predomina sobre a clareza, sobre o didatismo, sobre a retórica e sobre qualquer outro elemento discursivo. É o que diz Ariano Suassuna, em Iniciação à Estética, ao diferenciar a poesia da prosa, conforme veremos em detalhes alguns tópicos à frente.

Quais são as características de um poema?

Ezra Pound, no livro “ABC da Literatura“, define três aspectos que compõem um poema: melopeia, fanopeia e logopeia. Em outro artigo, entramos em detalhes sobre cada um desses aspectos.

  • Melopeia é a propriedade musical do poema. As palavras são sons e cada um desses sons causa efeitos no leitor.
  • Fanopeia é a propriedade imagética do poema. Quando falo sobre uma árvore, você a imagina; e cada uma dessas imagens causam efeitos, seja o encantamento, seja a indiferença.
  • Logopeia é a dança do intelecto entre as palavras. Esse conceito, inesgotável em sentidos, transcende os sons e as imagens, sendo o que nos moveu a criar essa página.

Além disso, existem poemas muito distintos entre si. Um poema pode ser metrificado ou não, pode rimar ou não, pode abordar temáticas diversas, pode ser curto ou quilométrico, pode conter diálogos.

Isso nos mostra a necessidade de entender a poesia como algo plural, que engloba diversos gêneros que, na atualidade, foram colocados dentro da mesma caixinha. Podemos dizer que existem dois gêneros poéticos: 

Os gêneros poéticos

É comum dizer que os grandes gêneros literários são romance, novela, conto e poesia. Mas, enquanto a prosa dispõe de três gêneros, a poesia é reduzida a um só, de forma genérica. 

Conforme vimos na introdução deste artigo, existem inúmeros textos distintos que são chamados igualmente de poesia. Então quais são os principais gêneros poéticos? Podemos dizer que são dois:

Poesia lírica 

A poesia lírica tem suas origens na Grécia Antiga, surgindo junto ao canto. A poesia era cantada pelos aedos ao som da lira, o que justifica a origem da palavra “lírica”. No entanto, na Roma antiga — mesma de Horácio —, ao invés de cantada, a poesia começou a ser apenas lida.

Os trovadores da Idade Média aproximaram novamente a poesia da música. Porém, esta relação teve fim por volta do século XV, de forma que as duas artes seguiram seus próprios caminhos de aperfeiçoamento, até chegarem às suas formas atuais. 

Conforme explica Massaud Moisés, a poesia lírica está preocupada com o próprio “eu”: é a expressão da subjetividade, das disposições da alma e dos sentimentos, e não de um objeto exterior. Por vezes, o poeta lírico fala de um acontecimento ou de um objeto, porém, isto não passa de mero pretexto para exprimir seus sentimentos e pensamentos.

Poesia épica 

A primeira obra literária de que se tem conhecimento é um longo poema épico: a Epopeia de Gilgamesh. A literatura ocidental começou com a Ilíada e a Odisseia, de Homero, sendo ambos poemas épicos.

Quando digo a palavra épico, é provável que você pense em feitos heróicos e grandiloquentes. E você tem razão: é disso que, no geral, se trata a poesia épica.

Mas, na verdade, há mais envolvido: aqui, diferentemente da lírica, conforme explica Suassuna, o poeta fala a respeito dos outros e não de si mesmo. É uma poesia essencialmente narrativa e trata de histórias e temas coletivos. A Ilíada, por exemplo, representa um povo e seus valores. A Invenção do Mar, épico contemporâneo de Gerardo Mello Mourão, segue a mesma linha; e Latinomérica, de Marcus Accioly, também faz o mesmo, apenas para citar outro contemporâneo.

A anatomia de um poema, de uma estrofe, de um verso

Um poema é composto por uma ou mais estrofes. Cada estrofe é composta por um ou mais versos. Cada verso é composto por uma ou mais sílabas poéticas.

As reuniões entre sílabas poéticas são chamadas de pés métricos. Os quatro principais pés são:

  1. Troqueu. Há uma sílaba forte seguida por uma sílaba fraca. Ex: Fortes. Fardos. Portas. Pratos.
  2. Iambo. Há uma sílaba fraca seguida por uma sílaba forte. Ex: Portões. Algoz.
  3. Anapesto. Há duas sílabas fracas seguidas por uma sílaba forte. Ex: Coração. Baluarte. Anapesto.
  4. Dáctilo. Há uma sílaba forte seguida por duas sílabas fracas. Ex: bado. tira. lido.

Poemas devem ser apenas lidos ou precisam ser declamados?

A poesia lírica surgiu junto ao canto. A Ilíada, por exemplo, é uma reunião de textos que foram cantados ao longo de gerações, sendo compilados por escrito posteriormente.

No entanto, a partir da Idade Média, o poeta e o músico seguiram caminhos distintos em busca da melhoria de suas artes. A divisão entre as duas formas é atribuída ao Guillaume Machaut (1300-1377). A partir daí, cada vez mais a poesia foi vista como um texto a ser lido, não a ser declamado.

Ariano Suassuna, em seu livro Iniciação à Estética, diz que Nédoncelle cometeu um erro ao classificar a literatura como “arte auditiva”. E responde (com grifo nosso):

“Creio que Nédoncelle foi levado a isso pela semelhança, meramente exterior, entre o ritmo da Música e a métrica da Poesia. Porque, sob qualquer ponto de vista, a junção das duas numa categoria só não tem sentido. Que a Pintura é uma Arte visual e a Música auditiva, está certo, porque em qualquer das duas o sentido através do qual a obra de arte se entrega à intuição exerce papel fundamental: um cego não pode apreciar um quadro, e um surdo total não pode apreciar uma sonata. Mas não acontece o mesmo com a Poesia e com as outras Artes da linguagem. Todas elas são muito mais puramente “intelectuais”. Não interessa, no caso da Poesia, o sentido através do qual o poema chega ao intelecto: se a pessoa for surda, pode ler o poema, se for cega, alguém pode recitá-lo para ela; até o tato pode levar o poema, pelos caracteres Braille, ao intelecto do contemplador; o que interessa é que as palavras e seu sentido cheguem ao intelecto, não importando qual o sentido através do qual isso se faça.”

Note que a Poesia e a Prosa estão juntas em “Literatura”. Por quê? Vejamos mais essa questão:

Qual é a diferença entre prosa e poesia?

Alguns adotam uma forma simples de diferenciar poesia de prosa: se está em versos, é poesia; se não, é prosa. Mas esse critério é impreciso, conforme vimos alguns tópicos atrás.

Ariano Suassuna, sobre a diferença entre os dois gêneros literários, diz o seguinte: “as características essenciais da Poesia, aquelas que verdadeiramente a distinguem da Prosa, são o ritmo e a imagem, principalmente a metáfora.”

Isso não significa que a poesia consista apenas em imagens, nem que ela pinte imagens de forma literal. Também não significa que na prosa não haja imagens e ritmo; afinal, qualquer um que já tenha lido um livro de ficção sabe que existem, sim.

O professor deixa claro que é uma questão de predominância: na poesia, predomina o ritmo e as imagens; na prosa, predomina a exposição e a narração. 

Quando se fala em ritmo, não se fala necessariamente em métrica e em rimas. A linguagem possui inúmeros recursos capazes de fazer algo soar em nossos ouvidos como música, mesmo não havendo nenhum instrumento musical envolvido.

Quando se fala em imagens, não se fala de usar letras em mosaico para criar desenhos. Lembre-se: a poesia é uma arte intelectual; ou seja, o que vale é o que é absorvido por nós intelectualmente, seja por meio dos ouvidos, seja por meio dos olhos, seja por meio dos dedos, seja por meio de sinais de fumaça.

Marcus Accioly, poeta cearense que integrou com Suassuna o Movimento Armorial, revela na prática o que é poesia e o que é prosa:

A prosa e a poesia se diferem
pelo mistério:
a casa era sem portas e janelas (…)
isto é prosa
a casa era de vidros e silêncios (…)
isto é poesia

pela música:
era uma vez um eco que dizia (…)
isto é prosa
era uma vez a vez a vez a vez (…)
isto é poesia

pela forma:
sob a luz apagada ele dormia (…)
isto é prosa
sob o peso da treva era o seu sono (…)
isto é poesia

pelo motivo:
a infância veio visitá-lo um dia (…)
isto é prosa
a infância acordou-se nos seus olhos (…)
isto é poesia

pela pintura:
o seu rosto era branco como o mármore (…)
isto é prosa
o seu rosto era um pássaro de nuvem (…)
isto é poesia

pelo equilíbrio:
o sol estava vertical no céu (…)
isto é prosa
o sol caía sobre a própria sombra (…)
isto é poesia

pelo movimento:
a flecha arremessada pelo arco (…)
isto é prosa
a flecha além do arco era uma asa (…)
isto é poesia

pelo ritmo:
era no dia o sol — na noite a lua (…)
isto é prosa
era no sol o sol — na lua a lua (…)
isto é poesia

pela força:
a lâmina brilhou sobre seus olhos (…)
isto é prosa
a lâmina de luz cegou seus olhos (…)
isto é poesia

pelo assombro:
o chicote vibrou como uma cobra (…)
isto é prosa
o chicote vibrou como um relâmpago (…)
isto é poesia

pela imagem:
dentro do rio era canção das águas (…)
isto é prosa
dentro do rio era a canção dos peixes (…)
isto é poesia
etc etc etc
(…)

Marcus Accioly

Por fim, deixo aqui um excerto do livro ABC da Literatura, de Ezra Pound: “Um estudante japonês nos Estados Unidos, indagado sobre a diferença entre prosa e poesia, disse: a poesia consiste em essências e medulas.”

Mas isso, que o Pound resumiu como “Ditchen = Condensare”, é assunto para outro texto.

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REFERÊNCIAS

MOISÉS, Massaud. A Criação Literária: introdução à problemática  da literatura. 7 ed. São Paulo, Melhoramentos, Ed. da Universidade de São Paulo, 1975. –

POUND, E.; AUGUSTO DE CAMPOS; JOSÉ PAULO PAES. ABC da literatura. São Paulo: Editôra Cultrix, 2013. 

SUASSUNA, Ariano. Iniciação à estética. Rio De Janeiro: J. Olympio Editora, 2005. 

Um comentário

  • Gabriel

    Artigo ótimo! Não fazia ideia que existia uma diferença entre “poesia” e “poema”. Agora entendi de verdade o que algumas pessoas querem dizer com o adjetivo “poético”

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