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Poemas têm sotaque?

É claro que a palavra escrita não tem literalmente sotaque — são apenas riscos em um papel. Mas, quando lemos um poema, é possível identificar vários traços de oralidade do eu lírico.

Vejamos um exemplo. Leia a estrofe final do poema A Casa de Carmo de Minas, do Emmanuel Santiago:

“Com sua maligna presença,
o tempo, que a tudo impregna,
converte em ruína o que resta
da casa de Carmo de Minas.”

A pronúncia normativa da palavra é “imprÉgna”. Mas, se você ler essa estrofe de um jeito normativo, surgem duas questões:

  1. Todos os versos possuem oito sílabas poéticas. Por que apenas o segundo teria sete?
  2. Por que essa estrofe, diferente de todas as 24 estrofes anteriores a essa, ficaria sem a rima entre o segundo e o quarto versos?

Ao perceber essa estranheza, se atente ao seguinte: o poema fala de uma casa em Carmo de Minas, no interior de MG. É sabido que, diferente da pronúncia normativa, a palavra é pronunciada popularmente como “impreguina” — pela dificuldade para se pronunciar o encontro de consoantes (G e N), é comum adicionar uma vogal, o que é chamado de “anaptixe” ou “suarabácti”.

Ao se dar conta do sotaque do poema, tudo faz sentido: ele soa perfeitamente bem.

Assim como nesse caso, em que Emmanuel utiliza o sotaque mineiro, outros poemas possuem sotaque perceptível ao observar a métrica. Mas não é apenas com variações regionais que isso ocorre…

A Cecília Meireles, falando do fogo, diz “es-voaça”, em vez de “es-vo-aça”, simulando o efeito das labaredas. E o próprio Emmanuel Santiago, em outro poema, faz com que as palavras soem cada vez mais compactas ao falar sobre um diamante: 

“Constrói-se a madrugada por camadas
que se vão sobrepondo nos andaimes
e, sob o peso de milhões de estrelas,
sedimentam-se num rigor constante,
concentrando-se até chegar ao ponto
da estrutura compacta d’um diamante.”

Queremos que entendam o seguinte: as sílabas poéticas dependem do som, não de regras gramaticais. Por isso, apesar de existirem regras para serem contadas, são sempre submissas ao som, de modo que não são uma ciência exata.

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