Poemas

“Resposta de Ulisses a Penélope”, um poema de Aulus Sabinus, traduzido por Gerardo Mello Mourão

O poema de Aulus Sabinus, aqui traduzido por Gerardo Mello Mourão, foi transcrito por Caleb Oliveira, que faz um cuidadoso trabalho de pesquisa a respeito da obra do cearense.

Quem foi Aulus Sabinus?

Aulus Sabinus, poeta latino do século I, contemporâneo e amigo íntimo de Ovídio. Em Amores 2.18.27-34, Ovídio informa-nos da astuta ideia de Sabinus de escrever uma resposta às “Heroides” em nome dos respectivos heróis às suas amantes:

Quão depressa retornou de uma volta pelo mundo inteiro
o meu caro Sabino
e trouxe ele mesmo as respostas, escritas em lugares vários!
Penélope, radiante, reconheceu o selo de Ulisses;
leu a resposta escrita por seu querido Hipólito à madrasta;
já o piedoso Eneias respondeu à infeliz Elissa,
e as palavras que Fílis há de ler, se ainda for viva, ali estão;
triste é a carta que chega a Hipsípile, mandada por Jasão;
e há de oferecer a Febo a lira que lhe prometera a poeta
de Lesbos, assim amada.

(Amores & Arte de amar. Tradução: Carlos Ascenso André)

Como consta no trecho acima, Sabinus escreveu seis respostas às “Heroides”: de Ulisses a Penélope (H. 1); Hipólito a Fedra (H. 4); Eneias para Dido (H. 7); Demophoon para Phyllis (H. 2); Jason para Hypsipyle (H. 6); e Phaon para Safo (H. 15).

Sobre a tradução de Gerardo Mello Mourão

A tradução do poema de Aulus Sabinus, “Resposta de Ulisses a Penélope”, feita por Gerardo Mello Mourão, foi retirada do Caderno RioArte, Ano III – N° 7, 1987.

“Resposta de Ulisses a Penélope”, um poema de Aulus Sabinus

O destino, Penélope, enfim trouxe
ao infeliz Ulisses tua carta
tão cheia de tocantes expressões,
desmancharam-se ao longe minhas mágoas
só por reconhecer-te a letra amiga
e o teu selo fiel.
E tu me acusas
de ser preguiçoso – o que fora melhor
do que contar-te o quanto hei padecido
e o quanto ainda – ai de mim – hei padecer!
O que tu podes, não o pode a Grécia,
que muda contemplou nas praias d’Ítaca
onde louco fingido eu passeava,
as velas de meu barco emurchecidas.
Ai, longe de teu leito era impossível
e foi por teu amor que fiz de louco.
Como escolher entre escrever-te logo
ou voltar aos teus braços duma vez?
Mas os ventos do norte têm soprado
contra o meu coração e as minhas velas.
Nem é mais Tróia – hoje só cinza e pó –
não me detém a mim a morta Tróia
que raparigas gregas tanto odeiam.
Asius, Heitor, Deífobo estão mortos,
mortos todos que outrora temerias.
Matei a Rheso, general dos Trácios
e aos meus acampamentos retornei
trazendo-lhe os cavalos apresados.

Do coração da fortaleza frígia
fui eu que, ileso, arrebatei a Palas
os troféus da vitória. E não tremi
no bojo do cavalo, embora ouvisse
a voz da profetiza, aos brados:
“queimai, queimai, troianos, o cavalo,
do seu ventre embusteiro os gregos pérfidos
saltarão para dar o último golpe
em nossa infeliz Tróia”.
E quando Aquiles
sem as honras de um túmulo jazia,
foi nos meus ombros que o levei a Tétis.
E por este carreto generoso
generoso salário deu-me a Grécia:
cobrei-lhe as armas do guerreiro morto.
Mas para quê? Foi tudo em vão; no mar
essas armas, a frota, os camaradas
está tudo sepulto e nada queda.
Ai! só resta comigo o que por todas
as minhas aventuras demorou,
o que sofreu comigo meus trabalhos
só ele ainda resta: o teu amor.
Nem mesmo a filha de Niseu o pôde
com a sua matilha destruir.
Nem a fúria das águas de Caribdes
nem o feroz Antífase nem mesmo
Partênope, a de corpo monstruoso
e voz de melodias encantadas.
Nada contra este amor – nem a magia
dos filtros que me deu uma Colquídea
nem mesmo a alcova de uma deusa pérfida
e de ambas a promessa sedutora
de erguer-me à natureza de imortal
e atravessar comigo a salvo o Estige.
Em vão me seduziam: a saudade
de ti por terras e águas me alentava
nos tormentos e danos que curtia.
Mas não tremas, querida, ao ver agora
um nome de mulher em minha carta:
um secreto ciúme, com certeza,
de há muito te atormenta por saber
de meu trato com Circe e com Calipso.
Pois ai, que a mim também não foge o sangue
ao ler em tua carta nomes de homens,
de Antínous, de Políbio, de Medontas?
Tu com tantos mancebos bebedores,
ai de mim! quem me diz se serás casta?
Por que deles alguns te agradam tanto?
Não te cegam as lágrimas e o choro
não desfez a beleza de teu rosto?
Pronta foras talvez a novo tálamo
sem esse estratagema do tecido
sempre feito e desfeito sem cessar.
São ardis da virtude! Mas teus olhos
tantas e tantas vezes levantados
voltarão sempre puros a teus fios?

Mais feliz, Polifemo, houvera sido
se eu em tua caverna fora morto!
Melhor fora tombar às mãos dum Trácio
quando a frota de meus batéis errantes
dera à costa de Ismara. Antes houvera
caído às garras do cruel Plutão
quando, venci a roda do destino
e incólume voltei à foz da Estige!
Foi lá e nesse dia que encontrei
(bem que na carta ocultas sua morte),
minha mãe, que era viva quando eu vim;
também ela manchou a sua alcova:
certa disso, fugiu ao meu chamado
e três vezes fugiu ao meu abraço.
Vi lá também a Filas, o primeiro
que, desprezando a tradição do oráculo,
avançou contra Heitor e sua gente.
Feliz esposo! que ao seu lado, alegre,
entre as sombras heroicas dos guerreiros
passeia a sua esposa: de seus anos
a Parca ainda não contara o número
– mas de tal morte é doce morrer antes.
Vi também – ai de mim! – que nem os olhos
puderam minhas lágrimas deter
de Agamenón desfigurado o rosto
pela morte recente: ele que, incólume
atravessara Tróia e Náuplio e as rochas
de Eubéia, – ó fados! – ir morrer assim,
por milhares de golpes mutilado
e quando já de volta, aos deuses pátrios
entregava o tributo de seus votos.
Já Tíndaris tramara este castigo
às infidelidades de seu rei  –
ela, que andou também de amante a amante.

Ai de mim! foi em vão que me cercaram
raparigas troianas e entre tantas
também escravas – a mulher de Heitor
e sua irmã; em vão entre elas todas
preferi escolher a velha Hecube
por te não provocar ciúme e queixas.
E foi ela a primeira que a meus barcos
as mais tremendas maldições lançou.
Desalinhado o vulto, seus clamores
transformaram-se em uivos e ela mesma
em cadela raivosa se mudou.
E Tétis sobre as águas assombradas
deixou sem freio os vendavais de Éolo.
E desde então que sem ventura e errante
perdido pelo mundo vou levado
aonde levam-me os ventos, aonde as ondas.
Mas se Tirésias, do bom fado acaso
quão das desgraças é tão bom profeta,
seus agouros cumpri por mar e terra
e dias bem melhores são vizinhos.
Pois já pressinto Palas, que ao meu lado
não sei bem a que praia hospitaleira
me vai levando a salvo: a mesma Palas
que por primeira vez me aparecera
entre as ruínas de Tróia e desde então
me castigava tanto.

Toda a Grécia
pelo pecado de Ajax respondia:
um por todos pecara.
Nem a ti,
Diomedes, outrora favorito
a deusa te poupou, pois também tu 
andaste errando pelo mar afora;
nem ao filho de Télamo, a ti, Teucro,
desde o rapto de Helena – nem ao rei
para quem mil navios navegavam.
Ó feliz Menelau! em teus azares
jamais te magoara a esposa amada.
Podem vos ter detido o vento e as águas
mas nunca detiveram vosso amor
e nunca interromperam vossos beijos;
sempre ao braço estendido havia o abraço.
Oh! quem me dera navegar assim!
Tua presença adoçaria as ondas,
contigo, amor, nem me doera a dor!
Mas já que sei de ti e de Telêmaco
mais leves para mim são minhas penas.
Inquieta-me sabê-lo navegando
por esses mares sempre incertos, rumo
a Pilos de Nestor e Esparta de Hércules.
Pois o amor filial é tão cruel
que precisasse expô-lo a tais perigos?
Mas já tocam seu fim os meus trabalhos
e breve acostarei às minhas praias.
“Só tu, querido, hás de reconhecer-me
e eu virei estreitar-me ao teu abraço:
mas oculta teu júbilo em segredo
e só no coração guarda a alegria
e nada mais de guerras e batalhas” –
assim predisse e aconselhou-me o vate.
Antes talvez de nos ser posta a mesa,
entre um vinho e outro vinho algum conviva
tenha tempo de ver minha vingança
e aterrado fitar aquele Ulisses
de quem acaso se burlaram tanto.
Oh! a sede de ver chegar o dia
que do tálamo antigo o compromisso
nos venha jubiloso renovar,
e afinal, da presença de teu homem,
tu possas desfrutar, querida minha.

Copacabana, 1 e 2 de outubro

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *